Bangu x Coritiba 1985 (por Paulo-Roberto Andel)

UMA NOITE DE SONHOS E LÁGRIMAS, 40 ANOS DEPOIS

Nos anos 1960, o time do Bangu brigou por vários títulos no Rio, tendo conseguido a grande conquista de 1966. Nos anos 1980, a volta às disputas aconteceu, ainda que sem o mesmo êxito, mas o Alvirrubro voltou a escrever páginas do topo.

Assim foi em 31 de julho de 1985, há quarenta anos, quando o Bangu chegou à decisão do Campeonato Brasileiro diante do Coritiba, após uma bela campanha marcada por vitórias expressivas sobre grandes equipes como Vasco e Internacional.

É importante dizer que o modelo de campeonato daqueles tempos, baseado em sucessivas chaves, permitia que às vezes acontecesse surpresas nos momentos decisivos. Mas seria tanta surpresa assim? Nas semifinais, o Bangu eliminou o Brasil de Pelotas, que por sua vez tinha eliminado simplesmente o Flamengo (campeão em 1980, 1982 e 1983). O Coritiba tinha superado o poderoso Atlético Mineiro. Os dois times fizeram por merecer a decisão.

O Bangu tinha um timaço e juntou o Rio de Janeiro a seu favor no Maracanã, com mais de 90 mil pagantes. Contava com excelentes jogadores, como o goleiro Gilmar; o meio de campo com Israel, Lulinha e Mário, mais o ataque com o monstruoso Marinho, João Cláudio e Ado na ponta-esquerda. À beira do campo, o icônico treinador Moisés, verdadeiro símbolo do Rio. Parecia que era a grande hora do clube da Zona Oeste, mas o Coritiba não estava à toa: tinha Rafael, um dos melhores goleiros do Brasil; Gomes, zagueiro campeão brasileiro pelo Guarani em 1978; o experiente volante Almir, vindo do São Paulo; o talento de Lela e Edson nas pontas, mais os gols do artilheiro Índio – autor do golaço de falta que abriu o marcador no Maracanã, com Lulinha empatando a seguir, ambos no primeiro tempo. Isso, sem contar com o lendário e campeoníssimo treinador Ênio Andrade.

O jogo, que começou quente, continuou tenso e emocionante até o fim, especialmente quando o árbitro José de Assis Aragão, em decisão polêmica, anulou o gol de Marinho perto do fim do jogo, que daria o título ao Bangu. O Maracanã inteiro arfava, até que a decisão foi para os pênaltis. A tensão ficou ainda maior, mas os cobradores não se intimidaram e foram perfeitos, com a série de cinco cobranças convertidas. Veio o matar ou morrer: Ado, excelente jogador, bateu a sexta cobrança para fora e Gomes, o único jogador do Coritiba que já tinha sido campeão brasileiro, bateu forte no canto esquerdo de Gilmar, dando ao Coxa o maior título de sua história. É assim nas finais: só um pode vencer.

No dia seguinte, o Rio amanheceu nublado, silencioso e tristonho. A cidade que se juntou por um time acusou o golpe. Mas por uma noite foi bonito ver o Maracanã inteiro tratar o Bangu como seu filho predileto e tão amado. Infelizmente, aquela grande decisão parece representar um momento único: três anos depois, o Bangu foi rebaixado e nunca mais voltou à elite do futebol brasileiro, caindo inclusive no cenário local. Em melhor situação, o Coritiba ainda disputa às vezes a série A nacional, mas também já foi rebaixado várias vezes.

Quarenta anos depois, aquela noite de 31 de julho de 1985 ainda é de sonhos, lágrimas e de uma saudade imensa. É difícil de explicar para os mais jovens, mas os que viveram aquele tempo nunca mais o esqueceram.

@p.r.andel

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