Saldanha 99 (por Paulo-Roberto Andel)

copa união 1987 2

Vivo estivesse, João Saldanha completaria hoje 99 anos.

É de se imaginar o que faria e diria caso estivesse por aqui.

Mas mesmo sua ausência física não o exime de ser uma referência brasileira permanente. No futebol, no carnaval, na política, no cotidiano.

Acompanhei o trabalho de Saldanha em seus últimos doze anos de vida por vários motivos. Depois, ídolo eternizado, mergulhei em seu passado e me assustei com o fato daquele senhor tão simpático e divertido (do jeito dele) ter sido uma verdadeira enciclopédia para se entender o Brasil de seu tempo, o de antes e o pós. Como ainda pode ser a síntese e a antítese de tanta coisa?

Pensando em João Saldanha você consegue refletir sobre o que chamam de novo jornalismo, esse que aí está com claros propósitos de favorecimentos pessoais em detrimento da transparência da informação.

Ou sobre a hipocrisia de muitos que discutem política, condenando na classe as más práticas que exercem cotidianamente.

Ou sobre um Rio de Janeiro que há muito deixou suas tradições autênticas de lado em troca de certo gigantismo oco.

Sobre doutores das ciências curtas e apagadas que veem em qualquer obrigação de Estado a bandeira do comunismo, também hipocritamente utilizando tal argumento para simplesmente deixar de lado o bem comum em prol do particular.

Saldanha me faz pensar em muita coisa.

Inesperadamente, com o passar do tempo, tornei-me um escritor.

Devo muito disso a ele, que tanto li na tenra juventude. Ainda leio. Também assustei-me, outro dia, ao lê-lo na Biblioteca Nacional: o texto remetia imediatamente à sua fala. Força da natureza.

Vivo estivesse? Saldanha aí está o tempo inteiro. Taí um sujeito que eu queria muito ter visto na arquibancada do meu Fluminense.

@pauloandel

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