‘Rebeldes da bola’ fizeram história

Artigo de João Máximo na Folha de São Paulo, 03/04/1994

O futebol sempre teve seus rebeldes. O último deles, Romário, às vésperas da Copa do Mundo dos EUA, tem a língua solta: chamou Pelé de “débil mental”. Não é o único. As impropriedades de Edmundo, Neto, Serginho Chulapa, Caju, entre outros, fervilham na memória do torcedor.

Mas outros tempos também tiveram seus rebeldes: Fausto dos Santos, Heleno de Freitas, Almir, Afonsinho. Uma galeria de grandes craques à qual poderia ser somado um rebelde genial: Thomaz Soares da Silva, o Zizinho.

Os cinco eram diferentes em tudo. Na verdade, só a rebeldia os uniu. Fausto dos Santos (1905-1939), um negro elegante e inteligente que decidiu enfrentar de peito aberto a perseguição dos dirigentes do Flamengo, que o queriam dócil e obediente. Foi derrotado. No futebol e na vida.
Morreu tuberculoso, num sanatório de Palmira, hoje Santos Dumont (MG), meses depois de jogar com 40 graus de febre sua última partida com a camisa rubro-negra. Era chamado de “Maravilha Negra” e, segundo quem viu, era o mais iluminado daqueles tempos.

Heleno de Freitas (1920-1959) foi dos casos mais patéticos de toda a história do futebol brasileiro. De uma família de classe média, advogado, culto, bonito, contraiu sífilis numa de suas muitas noitadas pelo Rio boêmio dos anos 40. Envergonhado, escondeu a doença de todos, inclusive dos médicos. Pouco a pouco, a sífilis converteu-se numa paralisia progressiva. Os que o chamavam de “temperamental” – tentando assim explicar suas explosões (chegou a empunhar um revólver para interpelar Flávio Costa, que o barrara no Vasco) – não suspeitavam que o maior centroavante de sua época simplesmente enlouquecia. Viciou-se: uísque, depois cocaína, no fim éter. E morreu esquecido num sanatório de Barbacena (MG).

Almir Moraes Albuquerque (1937-1973) foi um rebelde de pavio curto, violento, sempre de dentes trincados contra adversários e desafetos. Teve fim trágico: morreu a tiros numa briga de bar na mal-afamada Galeria Alaska, em Copacabana. Em campo, entre gols e dribles espetaculares, escreveu sua história com brigas memoráveis e pelo menos uma perna quebrada: a de Hélio, do América.

Afonsinho, hoje com 47 anos, era uma espécie de estranho no ninho do futebol da década de 70. Jovem, grande cartaz com as garotas, estudante de medicina, não se conformava com a escravidão a que os jogadores se submetiam em nome da chamada Lei do Passe. Entrou para a história como o primeiro a libertar-se, depois de uma luta nos tribunais contra o Botafogo. Hoje, pediatra, é mais lembrado por isso do que pelo bom futebol que jogava.

Resta Zizinho, 72, mais lembrado por suas proezas de craque do que como rebelde. Mas era, realmente, um indomável. Também quebrou perna e teve a sua quebrada, também brigou em campo e também enfrentou treinadores e dirigentes que tentavam, no grito, enquadrá-lo. Era melhor que todos eles. Chegou a ser vetado “definitivamente” da seleção, mas acabou voltando a ela por força de seu futebol. Rebelde, mas genial.

A incrível “barca” rubro-negra de 1980 (da Redação)

Em 06 de dezembro de 1980, terminado o Campeonato Carioca (vencido pelo Fluminense) e no período de férias do futebol, os jornalistas William Prado e João Saldanha criticavam a lista de dispensas feita pela diretoria do Flamengo.

Dentre os jogadores citados, ninguém menos do que Nunes, que seria no ano seguinte o artilheiro da decisão do Mundial Interclubes contra o Liverpool, além de Lico e Adílio, grandes destaques da temporada seguinte, considerada a maior da história do clube da Gávea.

Nenhum deles saiu, mas outros jogadores de ponta como Rondinelli e Júlio César acabariam negociados. E Carpegiani tornaria-se o treinador campeão, substituindo Cláudio Coutinho, que faleceria dias antes da final em Tóquio.

 

 

 

No meio do caminho havia um Luxemburgo (por Zeh Augusto Catalano)

 

Fim de semana de eliminatórias. Vários jogos interessantes para serem vistos e outras peladas inaceitáveis sendo transmitidas. O Sportv teve a pachorra de transmitir Bélgica x Gibraltar, na quinta-feira. Um nove a zero muito equilibrado.

Hoje à tarde, me preparei para assistir a uma partida decisiva. A Hungria, em casa, precisava desesperadamente vencer Portugal para seguir com chances mínimas de ir à Copa da Russia. Durante um primeiro tempo pavoroso, a coisa mais interessante que aconteceu foi uma cotovelada desclassificante de um atacante húngaro no Pepe, o sanguinário beque português nascido no Brasil. Foi devidamente premiado com um vermelho da cor de sua camisa e liquidou ali as parcas chances de sua seleção.

Zapeei. Parei em França x Luxemburgo, só esperando para ver de quanto a França já goleava. Aparece o placar. Seis do segundo tempo, zero a zero. Resolvi assistir até onde ia aquilo.

Ia entrar para história.

Luxemburgo se fechou com duas linhas de cinco jogadores  na cabeça de sua área e na sua intermediária. A França, lotada de craques e certa da vitória contra um indigente do futebol, foi rodando bolinhas para os lados e fazendo cruzamentos inócuos. E o tempo passando. Deschamps, técnico dos Bleus, piorou a situação substituindo errado. Sacou a nova estrela do Barcelona, Mbappé, talvez o único que se salvasse do sapato alto. O jogo acontecia em Toulouse, longe de ser um grande centro do futebol. Ao perceber o que se passava, a torcida local, de muda, passou a cantar a Marselhesa, tentando chamar os brios do time pelo patriotismo. Não adiantou.

Luxemburgo fez uma partida impecável. Segurou a França na bola. Cometeu pouquíssimas faltas e não fez cera. Surpreendentemente, ao retomar a bola, contra-atacava consistentemente. No meio do segundo tempo, num lance em que seu melhor jogador, o número sete Rodrigues, entrava sozinho para marcar o gol, o bandeira assinalou um impedimento de ruborizar flamenguistas. Rodrigues, que fez um partidaço, nascido em Portugal, joga num clube de Luxemburgo e certamente vai aparecer rapidamente em algum clube maior, tal o nível de sua atuação. No final do jogo, passou em velocidade por dois marcadores e chutou uma bola na trave de Lloris.

Resumo da atuação de uma França surpreendida pela dificuldade que encontrou, durante os três minutos de descontos a França não conseguiu sequer cruzar uma bola na área ou chutar a gol. Final melancólico para a seleção da casa e início de uma grande e merecida festa da equipe visitante.

O futebol segue sendo o único esporte a dar chance a um adversário tão inferior. A bola pune o sapato alto. Não foi a primeira e nem será a última vez em que isso acontece. E a França, pode chorar lágrimas de sangue por estes dois pontos jogados no lixo. No Luxo.

Nossa proposta com o PANORAMA DO FUTEBOL (da Redação)

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Caros amigos, o PANORAMA DO FUTEBOL pretende ser um espaço de resgate das discussões sobre o que cerca boa parte do futebol que não se vê na televisão.

Para isso, utilizaremos texto, imagem vídeo e som, na tentativa de agregar torcedores em geral que estejam dispostos a uma reflexão mais profunda sobre este esporte que encanta e inebria, mas também caminha com frustrações, falhas e anonimato.

Esteja em casa, feito um estádio de antigamente. Ou outro desses que a TV nem sempre se lembra de mostrar.

A equipe.