Altinho, altinha, celebração do futebol

Antigamente era altinho. O pessoal brincava antes de qualquer pelada, em qualquer lugar. O único objetivo era manter a bola no ar, numa espécie de frescobol coletivo – outro esporte solidário, sem vencedor ou vencido.

Na praia, o altinho se consagrou. Às vezes durava mais do que a própria pelada em si. Nos velhos tempos do futebol de praia em Copacabana, enquanto os dois times disputavam a peleja, atrás do gol ficava a turma na disputa de equilibro: a bola era a peteca e não podia cair. Ainda que seja uma prática muito ligada à praia, não é exagero dizer que o altinho fez parte da imensa faculdade de formação de boleiros Brasil afora, aprimorando o domínio de bola dos craques, outrora players.

O tempo passou, as garotas aderiram à prática trazendo ainda mais graça e beleza ao jogo, o altinho virou altinha – que valham as duas formas! – e se tornou patrimônio imaterial do Rio. A disputa oficial agora tem regras e pontuações, mas nada a afasta de seu curso natural, que é a beleza da solidariedade, um jogando pelo outro, cada um tentando um toque mais bonito e a bola no ar, voando alta ou um pouco mais baixa, prendendo todos os olhares ao redor. Talvez a busca por outra beleza, a do futebol que um dia tivemos no Brasil e deixava todo mundo louco de paixão. Talvez seja jazz tocado com os pés na esfera. Se os campinhos foram sendo apagados no Rio, pelo menos ninguém mexe ainda na orla e, com isso, não há dia em que, num passeio pela calçada, não se possa ver um grupo de artistas fazendo arte da própria brincadeira antes do jogo.

Neste 2022 a altinha ganhou até uma bela trilha sonora. “Espelho Solar” traz a parceria entre Rodrigo Lima, Ithamara Koorax e João Cavalcanti, com produção de Arnaldo DeSouteiro. Na letra, há uma linda passagem que captou o espírito da altinha em cheio: “Nosso espelho solar/ Onde põe-se a voar/ Nossa infância outra vez”. Nada pode ser melhor do que a junção entre os tempos de criança e uma bola para, mesmo que por alguns instantes, deixar a opressão do mundo lá fora e reviver a infância. O mundo precisa disso.

Os veteranos dos anos 1950 e 1960 agradecem.

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PARA ESCUTAR “ESPELHO SOLAR” – CLIQUE AQUI.

Livros (de futebol) e o leitor

Por conta do meu trabalho, especificamente no campo da literatura de futebol, é comum me mandarem mensagens do tipo “O que você acha do livro de fulano?”, “Sicrano mandou bem?” etc. No Fluminense então…

É o seguinte: eu não sou vigia da literatura alheia. Ela é livre e torço para que cada vez mais livros sejam lançados. Claro, sigo as determinações de meu ídolo Ivan Lessa: “Livro é pra ler, não pra enfeitar estante”.

Enfim, as questões éticas me deixam fora de declarações públicas sobre os livros de colegas/conhecidos do ramo do futebol, embora eu atue em outras áreas e esteja atento ao que acontece por aí. E tem de tudo, do melhor e do pior, como na vida. Já se foi o tempo em que ser publicado era garantia de excelência. Hoje, quantos não o são exclusivamente por causa de dinheiro ou financiamento de terceiros? Tudo é muito relativo.

Como profissional do ramo, tento fazer com que livros de terceiros tenham o máximo de qualidade, sem perder a pegada e o estilo de cada autor. Sem falsa modéstia, eu e meu sócio Zeh Augusto Catalano temos conseguido excelentes resultados. Os livros saem com a cara dos autores: nada é fake.

Não levo em conta declarações do tipo “É livro de historinhas”… A própria sentença define a anemia intelectual de quem a emite, assim como o tempo que não deve ser desperdiçado com isso. Detalhe fundamental: quantidade de informação e qualidade técnica nem sempre andam de mãos dadas, às vezes longe disso. Há livros que, por sua natureza, exigem fundamentos técnicos e perspectiva científica; outros simplesmente não precisam disso para ser honestos, bons ou ótimos.

A melhor opinião que tenho a dar não é a de escritor, revisor ou editor, mas sim a de leitor. Não leve a sério um escritor que não lê: qualquer profissional sério do ramo precisa ter muita carga de leitura, preferencialmente variada. E como leitor, o que eu procuro nos livros? Agilidade, emoção, clareza de texto – xô, pernósticos! – profundidade e… tesão. O gosto de quero mais. O livro não pode deixar a sensação de fastio no leitor, mas sim a de eletricidade, de querer que ele continue. Tanto faz se é um garotinho olhando para um campinho de terra, se é um torcedor idoso olhando seu estádio preferido e lembrando os melhores anos de sua vida, ou ainda um craque supremo remoendo seus rancores – o futebol é grande demais, nele cabem todos os roteiros e argumentos.

Uma coisa que ajuda muito o escritor iniciante – e até os veteranos acomodados – é ir além dos livros, mas em busca da arte. O cinema, o teatro, as exposições, os shows. As diferentes manifestações artísticas colaboram decisivamente para a formação intelectual do autor e, consequentemente, para sua própria evolução artística. Sair da mesmice, procurar outros ângulos, outras perspectivas. Futebol é maravilhoso mas sinto dizer: se você quer ser escritor do ramo mas se limita aos jogos e resenhas, seu campo de observação e análise tende a ser menor e isso atinge o texto de forma letal. Futebol é também música, cinema, quadrinhos, pintura e teatro. É arte. O que você lê em Nelson Rodrigues como futebol é na verdade teatro, tendo em vista o colossal dramaturgo que foi. O que faz João Saldanha um ícone da literatura de futebol é seu estilo simples, despojado mas acertando sempre a flecha no alvo com humor e profundidade.

Aproveito para reproduzir trecho de “A crônica”, texto definitivo do Ivan Lessa que fala do gênero brasileiro, mas que vale como reflexão para todos os outros na literatura.

“Conseqüentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro.

Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro.

Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador.

E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley?

A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.”

Por enquanto é só. Abraço.

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Autor de mais de 30 livros entre produções solo e coautorias, com diversas temáticas, Paulo-Roberto Andel edita o site Panorama Tricolor há dez anos – um dos maiores em produção 100% própria sobre um clube de futebol no Brasil – e o blog otraspalabras! há dezesseis. Biógrafo do roqueiro Serguei, atualmente Paulo é colaborador do jornal Correio da Manhã e do site Museu da Pelada. É um dos autores com mais títulos publicados no futebol brasileiro do século XXI. Seu mais recente livro, “Uma breve história da Portuguesa”, conta os quase cem anos da agremiação hoje símbolo da Ilha do Governador.

A paixão do torcedor

Colaboração de CH Barros

Os tempos sombrios em que vivemos, repleto de dor e angústia, é suficiente para que fiquemos desanimados, seja no futebol, no cotidiano, nos estudos, enfim: em todas as esferas. No entanto, os times voltaram a campo apesar da pandemia ainda ser vigente e, junto, a nossa paixão.

Torcer é uma coisa muito engraçada. Certas horas, dá vontade de jogar tudo para o alto e deixar de acompanhar seu time do coração, mas, se ele vencer na próxima rodada, a ânsia pelo jogo posterior é gigantesca até ele chegar. O torcedor é atemporal e sonhador, é movido por paixão.

A paixão do torcedor revela-se a cada instante de um jogo. Ela está no roer de uma unha, no palavrão dito quando o jogador erra um passe, na tristeza ao não ver um lance, na risada ao sair o gol. Ela é tão grande que é capaz de se transportar do sofá até o estádio e dar ânimo aos jogadores.

A paixão nos faz simplesmente esquecer de nossos problemas quando estamos assistindo nossos times jogar. Esquecemos, idem, até dos desfalques, de tão interessados que estamos na vitória. Xingamos, gritamos e vibramos, independente de estarmos no estádio ou não. Torcer é isso.

E não pensem que para por aí. A paixão, bem como o amor, é que nos leva a sonhar com dias melhores para os nossos times; ela é que move a pensarmos que nosso time pode virar o jogo, ainda que a partida esteja aos quarenta minutos do segundo tempo com o adversário vencendo por 2 a 0.

Isso é maravilhoso. O fato de estarmos sonhando com algo, de certa forma, faz com que vivamos por um segundo àquela realidade. Quem nunca sonhou com seu time sendo campeão mundial? Ou vencendo a Libertadores? Quando você pensa nisso, acaba vivenciando o momento.

Nos dias atuais, não há nada mais importante do que a fuga da realidade, a qual só nos traz brigas, desavenças e tristeza. A paixão e o futebol, amantes inseparáveis, é que nos dão esta dádiva. Nos fazem sonhar com dias melhores – por mais difícil que seja – e com as glórias do passado.

Resta-nos torcer para que esses sonhados dias venham, e que o nosso futebol seja mais valorizado pelo o que ele representa. Somos um país que respira futebol. Somente ele pode nos fazer vibrar de alegria com um gol mesmo num momento tão difícil e nos trazer uma ansiedade positiva pelo próximo jogo.

Devemos conservá-lo e tratá-lo com carinho, observá-lo além das quatro linhas. Futebol e torcida têm essência. Logo, não podemos deixar que o tal “futebol moderno” tire isso. Vejamos o exemplo do VAR: é algo que tira totalmente a emoção de um gol. Querem tirar até a essência da comemoração!

Não podemos deixar isso acontecer.

Um viva e um brinde ao futebol, à sua essência e a paixão que ele emana a todxs nós.

Saudações.

Foto: Thomaz Farkas

Lançamento do livro “Da lama à grama”, de Kleber Monteiro, nesta quinta-feira

Na próxima quinta-feira (16), o escritor Kleber Monteiro lança o livro “Da lama à grama” no Rio de Janeiro. A obra é a descrição de todo o campeonato da terceira divisão do futebol carioca no ano de 2019. Para realizá-la, Kleber fez viagens quilométricas de modo a assistir todos os times da competição pelo menos uma vez, contando tudo sobre jogadores, treinadores, dirigentes e torcedores.

Além dos jogos, que por si somente formam um livro único, o autor captou toda a atmosfera que cercava as partidas, desde fatos engraçados e até jocosos como dramáticos e reflexivos, captando uma realidade muito diferente da vivida pelos grandes clubes brasileiros. “Da lama à grama” é, desde já, um registro histórico.

O livro foi produzido pela Vilarejo Metaeditora, com a participação direta do PANORAMA: produção de nosso fundador e cronista Zeh Augusto Catalano, mais revisão e prefácio do nosso cronista Paulo-Roberto Andel. E para ficar tudo em casa, o lançamento será no Sebo X, apoiador desta casa.

OBS: atendendo aos protocolos necessários, não é permitido acessar o prédio onde fica o Sebo X sem o uso de máscara. A presença no evento deve ser confirmada antes pelo Whatsapp (21) 99791-5589.

SERVIÇO

“Da lama à grama: uma viagem pela terceira divisão do futebol carioca”

Lançamento: 16/07/2020 (quinta)

Horário: agendado pelo Whatsapp (21) 99791-5589

previamente entre 13 e 17h.

Local: Sebo X – Praça Tiradentes, 9/sala 601 – sexto andar – Centro – RJ

Preço: R$ 50,00. Débito, crédito e dinheiro.

Produção: Vilarejo Metaeditora

Tamanho: 14 x 21 cm

Páginas: 186

Brianezi 1981/1982

O que me lembro mesmo era em 1981. Havia uma loja de brinquedos na Rua Santa Clara, quase chegando na Avenida Copacabana. Chamava-se Dom Pixote. Pronto.

As caixinhas azuis traziam times incríveis, numerados – um sonho à época -, modernos. Os escudos eram bem grandes e visíveis. E vinha uma linda palheta multicolorida, bela, psicodélica.

Naquele tempo usávamos o Estrelão para jogar. E dadinho também. As bolinhas de feltro ficavam guardadas como troféus.

A onda se espalhou pelas ruas. Siqueira Campos, Figueiredo Magalhães, Barata Ribeiro. O coração de Copacabana ficou louco por vários garotos querendo os botões Brianezi, misturando-os com os galalites ou mesmo substituindo-os. Os garotos juntavam a mesada para comprar os times completos. Noutras vezes rachavam a caixinha: quem ficasse com o 9 e o 10 abria mão do goleiro. Palheta de um lado, bolinhas de feltro do outro.

Os campeonatos foram pipocando: debaixo da escada rolante do shopping da Siqueira Campos – ela, escada, não funcionava. Nos corredores dos blocos residenciais. Aos pés da lanchonete do pai do Marcelinho. O Bola tinha uma mesa grande, morava numa cobertura na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro. Paulinho organizava campeonatos na Ladeira dos Tabajaras. Luis Fernando, no Copaville.

Podia ser a foice e o martelo da URSS, a estrela de Davi no botão azul de Israel, o Saint Etienne da França. Eu preferia os times cariocas. A Brianezi era uma força da natureza para muitos garotos de 1981, com todo o amor de um mundo de botões e dadinhos. Futebol pra valer.

Quase quarenta anos depois, o sentimento ainda é o mesmo. As cores, a caixinha. Os garotos de Copacabana. Campeonatos, risos e abraços. Jogávamos nossas vidas e valia a pena. Era o botão, o jogo, a palheta de mil cores incandescentes. A caixinha.

@pauloandel

Craques da praia

Quatro caras jogando bola na praia eram do barulho. William, Barroco, Xuru e Lubi. Todos monstruosos. Ofensivos, talentosos.

Três deles foram escoteiros no 44, na Paróquia Santa Cruz de Copacabana. Dois deles estudaram juntos no Cícero Penna. Dois deles jogaram juntos no Dínamo, time seminal da praia com o eterno presidente de honra, treinador e manager Tião Macalé. Todos eram fominhas de bola, entrando a noite nas peladas quando ainda não havia iluminação na praia.

Houve um tempo em que William e Barroco eram sempre vistos em alguma trave entre a República do Peru e a Santa Clara. Sempre titulares, jogavam onde queriam. Atuaram por muitas equipes. Cavaleiros negros da bola. Já o Xuru era louro de olho claro, filho de português, tinha cara de turista e ainda colocava aqueles bermudões coloridos. Fazia o que queria com a bola, só não era tão rápido. O Lubi era moreno de cabelo preto liso. Parecia impossível que não se tornasse profissional de futebol, tamanha era sua qualidade – e ainda destruía no futebol de salão, na quadra do Corpo de Bombeiros da Xavier da Silveira. Aliás, qualquer um deles poderia ter sido jogador profissional, justamente no começo dos anos 1980, quando a derrota do Brasil para a Itália criou a maior mentira do mundo – que não se podia jogar bonito, mas apenas com força.

Durante anos desfilaram seus talentos pela areia, sempre requisitados. Durante o dia, podiam ser vistos em restaurantes nobres como o Bonino’s, lanchonetes da moda como o McDonald’s da Hilário de Gouveia, cinemas como o Roxy, danceterias como a Help (sobre as ondas).

O Barroco chegou a jogar salão pelo Flamengo. William ficou muito tempo jogando na praia. O Xuru não levou a sério – um desperdício – e resolveu fazer faculdade na UFRJ. O Lubi sumiu.

Não havia smartphones, cams, mal tinha telefone e a máquina fotográfica era cara, uma pena: mereciam registros para a posteridade.

O melhor time do bairro

Colaboração de Alberto Lazzaroni

Senhores, isso tudo aconteceu no século passado. Eram os idos dos anos 1970. O ano ao certo eu não sei. Mas, querem saber? Isso é o que menos importa. Só sei que, no melhor estilo Gil Gomes “Meninos, eu vi!”

Era o clássico do bairro. Não tinha mais aonde colocar gente no estádio da A.A. XV de Novembro da Vila Carmari. Mavile x Flamengão. Muita rivalidade em campo. O alviverde contra o rubro-negro. E o melhor: o vencedor levaria o trofeu de melhor time do bairro.

Eu estava muito feliz pois meu pai havia me levado para ver o jogo e só de estar ali com ele, era mesmo motivo para muita alegria. Torcíamos pelo Mavile que era realmente um timaço. O craque era ninguém menos que meu primo, o Verinho. Que jogadoraço! Ditava o ritmo no meio de campo. Além dele, havia também na meiúca o cerebral Beto Minhoca e o artilheiro Índio, além dos sempre eficientes Luizinho e Nelson Bacalhau. Estávamos confiantes na vitória.

O jogo começa brigado e o Flamengão, como esperado, vinha com o claro intuito de segurar o ímpeto do alviverde. E, num lance fortuito, abre o placar. Pronto. Não fez mais nada a não ser pressionar a arbitragem para que o jogo acabasse logo. Não deu certo. O Mavile apertava e num bate e rebate, o artilheiro Índio empata entrando literalmente com bola e tudo. Mal o Flamengão dá a saída, o Mavile retoma a bola e entrando pela direita em diagonal, como um raio, Ju vira o jogo.

Explosão da torcida. Vibração total. Não havia tempo para mais nada e o juiz apita o fim do jogo. Tumulto generalizado. Empurra empurra com a equipe do Flamengão, que tanta cera havia feito, querendo agora que a partida continuasse. Nada feito. O juiz irredutível disse que o jogo havia acabado e os atletas do Mavile correram para a mesa à beira do campo para pegar o trofeu. Mas, que trofeu? Ele não estava mais lá.

– Como pode? – todos se perguntavam.

Nisso, veio um grito. Tá aqui, dentro da sede. Venham!

E foi aquele corre-corre para pegar o troféu. Chegando lá, um funcionário do clube, sede do evento, não queria liberá-lo. Disse que haveria uma nova partida. Foi devidamente “convencido” a fazê-lo.

Os jogadores do Mavile então saem pela rua desfilando com orgulho ostentando o trofeu conquistado. Mas não havia acabado. Numa última e desesperada tentativa, vem de lá um diretor do Flamengão e segura o trofeu, puxando-o para si. Puxa daqui, puxa dali, finalmente o diretor solta o desejado objeto e os atletas alviverdes comemoram como se fosse mais um gol.

No entanto, algo inusitado havia acontecido. O trofeu era formado pela escultura de um jogador chutando uma bola. Na disputa por ele, o braço do jogador do trofeu foi arrancado. Silêncio inicial e perplexidade. Nada muito duradouro. Alguém grita: vai sem braço mesmo!

Carnaval fora de época. Lá se foram eles, sambando e cantando em direção à praça São Jorge, mais especificamente ao local de comemoração de todas as vitórias: a padaria do Seu Tomás. Agora, era só esperar a chegada da bateria do Bloco do Caixote e comemorar até o dia clarear. E o amanhã? Responda quem puder.

O meu Fla-Flu particular

Colaboração de Alberto Lazzaroni

Nasci numa família grande. Ou seria numa grande família? Bom, o que importa mesmo é que tanto do lado paterno quanto do lado materno tive muitos tios, tias e, consequentemente, primos e primas. Os encontros de família eram memoráveis. Muita alegria, música e comida boa. Nossa, e que comida boa…

Um dos meus tios, irmão mais novo da minha mãe, era também meu padrinho. E ele realmente foi um segundo pai pra mim. Ele e meu pai eram tão unidos que muitos pensavam que eram irmãos e não cunhados. Quando eu tinha uns cinco anos de idade, minha mãe adoeceu de tuberculose e teve que ser internada numa clínica em Correias, na Região Serrana. Nesse momento, com meu pai trabalhando direto e sem ter quem pudesse tomar conta de mim e dos meus irmãos em nossa própria casa, fomos eu e meu irmão para a casa desse tio. Ele morava num distrito que hoje é um município: Queimados. Tenho excelentes lembranças desse período em que, a despeito da ausência da minha mãe e das visitas esporádicas do meu pai, fui muito bem tratado.

Mas havia um detalhe: esse tio era flamenguista. Não, vocês não fazem ideia do que eu estou dizendo. Na verdade, para bem fielmente retratá-lo posso dizer que ele era “O” flamenguista. Ele era muito apaixonado pelo Flamengo e discutia na rua, na loja, em qualquer lugar que fosse para defender o seu time. Chegava a ser engraçado. E aí veio o inevitável: tentou me convencer a ser torcedor do seu time também. Eu já era tricolor mas uma criança de 5 anos ainda é muito suscetível a essas mudanças, ainda mais sendo estimulada para tal.

O tempo passou, minha mãe se recuperou e voltamos para nossa casa. A vida seguia o seu curso e eu firme e forte com o Fluminense, seguindo os passos de meu pai e de meu irmão mais velho, nessa época já vivendo os dias da grande Máquina Tricolor. O Flamengo de Zico no entanto se aproximava. Havia ali uma oportunidade. Meu tio a percebeu e num belo dia ele aparece lá em casa com uma camisa, tipo T-shirt. Lembro bem dela: era branca e de longe se percebia uns pontos em vermelho e preto. Quando pegávamos a camisa e olhávamos de perto, com atenção, a coisa ficava clara: não eram pontos e sim a palavra “Mengo” escrita de forma minúscula sobre toda a camisa. Estranhei mas fiquei com ela. Instintivamente não a mostrei para meu pai para não ter confusão.

Num belo dia, vesti a tal camisa e fui pra rua jogar a minha pelada diária. A turma toda já estava no campinho mas eu dei falta de um amigo. Perguntei por ele e os outros responderam que hoje ele não viria para a pelada pois o pai começaria a criar porcos e ele estava lá ajudando a construir o chiqueiro. Explicações dadas, rola a bola. Lá pelas tantas, esse amigo surge na rua puxando um carrinho de mão cheio de serragem. É, a serragem seria usada para forrar o chiqueiro. Aí, aconteceu o que a molecada gosta de fazer: a zoação foi geral. Digo zoação pois naquela época não havia surgido ainda a expressão “bullying”. Todos rindo daquela situação. O amigo, logicamente, não gostou. Já estava privado do futebol e a galera ainda zoa? Não prestou. Se abaixou e pegou um punhado de pó de pedra e veio pra cima da gente. Só que, ao chegar mais perto, tacou tudo em cima de mim. Não gostei e achei desproporcional. Peguei ele com carrinho e tudo e joguei dentro do valão que havia em nossa rua.

Ele saiu chorando pra casa e em seguida retorna com o pai, sendo que este segurava uma madeira. O vizinho então começou a me ameaçar com a madeira ordenando que eu retirasse o carrinho do valão. Como não o obedeci, ele começou a me bater de leve com a madeira. Só que já haviam avisado à minha mãe. Nem preciso relatar os detalhes. A confusão já estava formada e no melhor estilo leoa defendendo o filhote, minha mãe surgiu se interpondo entre eu e o vizinho. Acabei sendo puxado para casa pela minha mãe que, aos berros, me recriminava e, ao mesmo tempo, desfilava todos os impropérios para o vizinho. Instintivamente, olhei para o meu corpo e me dei conta que estava com aquela camisa. Pensei: ela me trouxe azar. Arranquei-a do corpo e a joguei também no valão. Estava definitivamente encerrado qualquer flerte com o oponente.

Nunca comentei isso com o meu tio. Provavelmente minha mãe o fez. A verdade é que daquele dia em diante ele nunca mais quis me fazer mudar de time. E aconteceu algo interessante em nossa relação: quando conversávamos sobre futebol, ele jamais falava mal do Fluminense e nem eu do Flamengo. Podíamos até fazê-lo longe um do outro. Um para o outro, jamais.

Esse amado nos deixou em 2007. Depois de lutar bravamente, sucumbiu a um câncer. Até hoje sinto o cheiro da loção pós-barba que ele usava. Um vazio impreenchível existe dentro de mim. Mas, acima de tudo, ficou o exemplo maior de uma pessoa que foi todo amor para comigo e com todos os que conviveu. Um cara verdadeiro, incapaz de fazer média com quem quer que fosse. Esse era o Sr. Jairo. O cara com quem travei o meu Fla x Flu particular, no qual não houve vencedor e sim vencedores. Descanse em paz, tio.

Sabe o que é futebol?

Gosto é gosto, é de cada um, mas queria dizer algumas coisas de quem vem dentro disso há mais de 40 anos.

Se não sabe o que é futebol, recomenda-se silêncio para não falar besteira.

Parando pra pensar: nesse momento em que há uma tragédia mundial, não bastasse todo o mar de problemas e tristezas, o futebol está fazendo muita falta.

O Brasil não é uma república federativa com 100 milhões de TVs Smart. Não. Aqui no Rio mesmo tem pedaços da cidade que sequer têm luz. E gente humilde demais que tem como única distração o jogo de futebol no radinho de pilha, ou a resenha.

Pelada de rua, golzinho, de fora, tudo está proibido. Muitos garotos pobres, longe demais de pais com ótimos salários, às vezes só sabem o que é brincar quando há uma bola, mesmo que esteja esgarçada, com a câmara de ar em carne viva.

Já ouviu falar na geral do Maracanã? Ela foi assassinada há quinze anos, mas por outros cinquenta e cinco era o único lugar desta cidade maravilhosa onde brancos e negros se abraçavam de verdade toda quarta-feira e domingo – e quando tinham que sair na porrada, era de igual pra igual.

Durante muito tempo, num país comprovadamente escravagista (“E daí?”, né), a negritude tinha duas chances de ser respeitada como devido: na música popular ou no gramado de futebol. O racismo esteve e está em todos os lugares, mas o futebol ajudou de vários modos a lutar contra ele.

Quer saber de futebol? Pergunte para alguém que já ama o jogo há muito tempo sobre como tudo começou. Vai dar um livro inteiro.

Se é domingo na arquibancada, sábado no campo da praia ou feriado na grama ao lado do churrasco, não importa. Pode ser na mesa de botão, no game do computador e até no velho Telejogo, o futebol está lá ganhando os corações. E o Pelebol? E os craques no fundo das tampinhas de garrafa?

Os cinquentões de hoje foram crianças vendo e ouvindo Rivellino, Ademir da Guia, Dicá, Edu. Seus pais vibraram com Castilho, Barbosa, Evaristo de Macedo. Os avós sonharam com Domingos da Guia, Fausto, Heleno, Batatais, Lelé. As crianças de agora podem saber de todos eles.

Sabe quem foi Roberto Gomes Pedrosa? Já ouviu falar de Preguinho? E Belford Duarte?

E o Fla-Flu da Lagoa em 1941, hein? E a Taça Salutaris de 1927?

Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. País, Uchoa, Alex, Geraldo e Álvaro. Wendell, Miranda, Tadeu, Edinho e Rubens. Lico, Nunes e Tita. Jorginho, César e Baroninho. Todo de preto, o Borrachinha. De camisa branca, Leão.

Não despreze quem ama futebol. Tem muito mais coisas em jogo do que somente uma partida. Tem crônica, cinema, teatro, romance. Tem beleza até nos finais infelizes – pergunte aos maníacos que andam vendo reprises de derrotas de seus times há 30 anos!

Um garotinho com um cachorro quente na mão, um copo de Coca-Cola na outra, o popô no velho concreto quente e com seus pequeninos olhos espiando Edinho, todo de branco, arrancando da defesa para o ataque até fazer um golaço, comemorar feito um louco e, no final do jogo, lamentar a péssima vitória do Fluminense por 4 a 0 – poderia ter sido melhor. Ao lado, o pai sorri.

“Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval”. – Eduardo Galeano.

@pauloandel

Futebol no Aterro

Era uma aventura rápida. Sair de Copacabana num ônibus qualquer, saltar no Aterro do Flamengo e procurar duas boas árvores para servirem de traves. O gramado, um tapete de sonhos como se fosse jogar no Maracanã. Basta uma bola e o dinheiro da passagem.

Podia ser com um amigo, um conhecido ou outro menino que estivesse pela redondeza disposto a jogar, nem que fosse um chute a gol revezando os dois batedores. A vantagem do Aterro é que, por ser imenso, ninguém deixa de se divertir com o jogo de futebol, desde os pequerruchos que chutam bolas de plástico do mesmo tamanho deles até os marmanjos, que fazem dos campos de areia uma verdadeira La Bombonera, o mítico campo do Boca Juniors em Buenos Aires.

Golzinho com par de chinelos ou latas ou um objeto qualquer. Dupla de praia em plena grama. Dois trios chutando contra um só goleiro. Dentro ou fora. Pela manhã ou à tarde todos sonham em ser Edinho, Falcão, Cláudio Adão, Careca. Dribles de Adílio, arranques de Júlio César Uri Geller. Quem está no gol pode ser Leão, Carlos, Paulo Sérgio ou Waldir Peres. E se pode sonhar com um mar de gente ao lado, muitas bandeiras, fumaça, fitas de papel higiênico fazendo serpentinas na arquibancada, muito pó de arroz e um lindo placar eletrônico no cheio de lâmpadas onde se lê “SUDERJ informa”.

Os garotos, que nunca mais vão se ver depois da pelada, viveram juntos algumas horas da existência por motivo de futebol. Foram camaradas ou inimigos sem rancor. Correram, suaram, sonharam com a magia que poderá inebriá-los para o resto de suas vidas.

Terminada a peleja, um deles se senta na grama sozinho, pega o único trocado que lhe sobra, chama o sorveteiro e compra um picolé de limão. Refresca-se depois da correria e espia todo o lugar, abraçando com carinho sua bola de futebol emborrachada e humilde. É um Maracanã depois de um jogo do pensamento. Pergunta as horas para um corredor grandão, são quinze para as quatro e ele decide voltar para sua casa: a televisão vai transmitir Grêmio e Flamengo, decisão do Campeonato Brasileiro de 1982. Todos querem ver e torcer para alguém!

Minutos depois, sentado no banco de trás de um ônibus 433 absolutamente vazio, ele olha para a Enseada de Botafogo, vê outros garotos jogando futebol de praia, sonha com um bom almoço depois do banho, fica empolgado em passar pelos túneis que lhe servem de caminho para casa e depois do segundo, já perto, pensa se gostará do futebol daquele mesmo jeito aos trinta ou quarenta anos de idade.

A pessoa é para o que nasce.

A linha do céu de Moça Bonita

Fim de tarde, fim de jogo, os admiráveis maníacos já deixaram o estádio do Bangu, o Fluminense jogou outra vez. É uma sede interminável. O jogo, o jogo, o próximo jogo, o próximo campeonato, a próxima temporada. Assim tem sido para mim e para muitos torcedores que acompanham seus times de futebol pelo mundo afora.

A diferença do Fluminense para todos os outros está no meu coração de criança. Foi dele que tudo veio, que me trouxe até aqui e que me levará para o futuro imprevisível. Meu time é meu grande companheiro da trajetória de vida. Bons e maus passaram, amores também, as pessoas amadas disseram adeus e ficaram guardadas para sempre no coração. O Fluminense não: como nos versos geniais de Caetano, ele é tensão flutuante do Rio. E por quase todo o ano, a cada três dias ele mobiliza sua gente a persegui-lo como pode: de trem, ônibus, bicicleta, pela TV do bar da esquina, pelo fone de ouvido, pelo radinho de pilha da portaria ou da barraquinha de camelô.

A linha do céu de Moça Bonita desenha um fim de dia, mas na verdade é o recomeço do eterno presente em que vivemos. O Fluminense é pensado, sonhado, desejado. Tal como a pessoa amada, ele instiga e pouco importa se está ou não em seus dias de glória, porque torcer não implica em lógica nem casuísmo, não é escolher quando se busca, mas um sonho que só termina com a morte e talvez nem isso.

O Fluminense está na linha do horizonte, com suas cores diferenciadas pela beleza da luz que abraça a Terra esférica. Ele também está no ponto de ônibus abraçando um coração sereno de volta para casa, nos carros que passam e no mistério da noite que se avizinha. A procura incessante que Bob Dylan faz desde que saiu de casa há muitas décadas e, com seu ônibus, atravessa os Estados Unidos com sua “Neverending Tour”, a turnê que nunca termina, pouco importando se os ginásios vão estar apinhados de gente ou com os gatos pingados facilmente identificáveis, porque estão sempre lá e rangem os dentes em qualquer lugar onde as três cores são nome. Perto dos 80 anos, o trovador estadunidense, o maior artista vivo de seu país, rima com o Fluminense.

Lá vai o velho escudo correndo pelo asfalto procurando a beleza das luzinhas no fim da estrada que não chega, abraçado pelo azul do céu que morre e renasce a cada dia, às vezes coberto de gris, noutras límpido e certeiro. Eu também estou lá, mesmo quando não preciso ou sequer consigo fazer a procissão do futebol ao vivo. O meu Fluminense está em todos os lugares, ganhando ou perdendo. Ele está muito acima de covardias, da vaidade dos homens maus, dos deslumbrados ovos que dele se locupletam por algum motivo – todos vão passar, só o Fluminense não passará jamais, como bem disse o maior de todos os escritores tricolor. O que está em jogo é muito acima de tudo: voar em busca do meu time e, a cada três dias, navegar por lindas noites e tarde para encontrá-lo como se fosse o beijo desejado, que não se encerra em si – ele insiste, avança, avança, sempre em busca do infinito.

Em frente à linha do céu de Moça Bonita eu penso no Fluminense. Quando me sinto miserável e abandonado, penso no Fluminense e ele me oferece acalanto. Quando saio depois de uma derrota, me irrito por trinta segundos e então penso em onde será a próxima partida do Fluminense. Meu coração não se apequena, pelo contrário: aí é que ele se agiganta em uma busca que nunca terá fim. Olho para trás, vejo mais de quarenta anos passados, sonho com mais trinta à frente, ou vinte que sejam bons, ou o que vier porque não tenho o controle disso, mas aquela velha emoção de criança ainda queima com toda fúria: é a próxima partida, é o Fluminense, onde estará o Fluminense, oxigênio do meu pensamento, água para a sede que não cessa, a força que nunca seca, a linha do horizonte que me chama e faz sentir minha mão dada à de meu pai, como se aquela linda imagem algo dissesse “Vamos! Hoje é dia de jogo, vamos perseguir o nosso time”. Eis o que nos cabe.

@pauloandel

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Sobre a foto espetacular de Vinicius Viana, também em homenagem ao aniversário de Leonardo Moretti e a todos os tricolores que perseguem o Fluminense por amor, cada um a seu modo, desde muito até o sempre.

Título inspirado em “A linha do céu de Barueri”, publicado em “Do inferno ao céu – a história de um time de guerreiros”, Editora 7Letras, página 127, 2010, e consequentemente em “Nashville Skyline”, Bob Dylan, Columbia Records, 04/04/1969.

Ivan Lessa: Futebol é ciência

Publicado originalmente na BBC Brasil em 28 de junho de 2006

Acabou-se o que era doce. Ou acabou-se o que era pau puro (vide, ou relembrai, Portugal contra Holanda). Futebol agora pode virar ciência exata. Feito hóquei em patins e bacará.

A afirmação, bem dizendo, a demonstração, foi feita por um cientista, raça que – todos sabem – não respeita nada que é sagrado. Algumas horas antes do apito inicial para a contenda entre as seleções da Inglaterra e do Equador, Kenneth Bray, um teórico dos mistérios da física, atualmente cedendo suas luzes à Universidade de Bath, resolveu dedicar um pouco de seu precioso tempo ao nobre esporte bretão, como ainda o chamam aqueles que nunca viram um jogo da atual seleção inglesa.

Principalmente do jogo em questão, aquele de sábado contra os pobres dos equatorianos. Sejamos, no entanto, docemente científicos e exerçamos uma marcação corpo a corpo sobre o ilustre cientista.

Ken Bray, como é conhecido na intimidade – e mais de uma pessoa já apontou para o fato de que parece nome de lateral direito marcador de ponta esquerda — Ken Bray, dizia eu, tomou de seu computador, ou o do Universidade de Bath, não ficou claro, e utilizando-se de fotografias digitalizadas do “tanque” Wayne Rooney, a grande esperança inglesa, foi armazenando dados para sua implacável equação.

Vocês todos, coitados, já viram ao menos uma fotografia de Wayne Rooney. Sim, eu concordo. É chato. Ele é conhecido nos círculos maldosos como “Shrek”, em vista de sua extraordinária semelhança, só que em branco azedíssimo, com o personagem computadorizado daqueles dois divertidos desenhos eletronicamente animados.

O homem é uma geladeira ambulante.

Ken Bray empregou fotografias digitalizadas a um décimo de segundo durante os 90 minutos regulamentares de um jogo inteiro de futebol que tivesse contado com os esforços de Rooney. Trabalhão aborrecido esse, hein? De posse dessas preciosas fotos todas, o insigne professor (presumo que seja formado) concluiu que o jogador cobre cerca de 7,3 milhas, ou quase 12 quilômetros de distância, em uma partida normal, se normal pode ser qualquer partida que conte com os enérgicos esforços do “Shrek” retangular da redonda.

Pouco mais da metade desses quilômetros são percorridos à velocidade de um corredor profissional de meia distância. O resto como fundista, ou simplesmente caminhada, à beira-mar ou campo, como quiserem. Ken Bray passou em seguida, de calcanhar, à sua exposição (exposição? Que exposição?) tendo declarado à imprensa, como um técnico sagaz ou ponta de lança mentalmente contundido:

– Todos querem saber se Wayne Rooney é o mais perfeito dos jogadores de futebol. Resposta? Possivelmente, sim.

Embora ninguém quisesse saber nada, o físico britânico desandou a tacar equações num quadro negro para provar sua tese. Parecia o tal técnico sagaz. Aquele da Costa Rica.

Deixando afinal de lado o giz, Ken Bray encerrou sua coletiva afirmando que a Inglaterra ganharia do Equador. Isso era fato e fato científico.

Entre os jornalistas, pasmo geral. Pareciam direitinho a defesa da Sérvia e Montenegro no jogo com a Argentina. Ninguém entendeu nada. Sabiam apenas, e assim reportaram, que com a ciência não se discute, assim como não se dá cabeçada em juiz russo incompetente.

E não é que foi tiro e queda? Tiro de David Beckham. Queda do pobrezinho do Equador que merecia coisa – equação que fosse – melhor. Agora é mandar uma equação semelhante para cima de Portugal. Que, na grande tradição holandesa, bem que poderia alijar da peleja, nos primeiros cinco minutos do jogo, o inefável Wayne Rooney.

Fechado por motivo de futebol – Eduardo Galeano

Tradução de Eric Nepomuceno, Sergio Faraco, Ernani Ssó, Marlova Aseff

“Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado por motivo de futebol. Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado 64 jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida.”

O futebol sempre fascinou Eduardo Galeano, que sobre o assunto tem nada menos que um clássico, Futebol ao sol e à sombra. Ao longo da vida, o uruguaio Galeano escreveu e viveu a paixão pelo esporte, infinitamente mais intensa a cada Copa do Mundo, e dessa paixão surgiu o volume que o leitor tem em mãos. Aqui estão reunidos todos os outros textos do autor sobre esse esporte capaz de despertar emoções coletivas, alguns já publicados esparsamente em livros, mas também vários inéditos e verdadeiros achados, como a crônica em que chama Che Guevara de “traidor” por ter trocado o futebol pelo beisebol em Cuba.

Fechado por motivo de futebol propõe um itinerário pela história deste esporte, desde o tempo em que os jogadores recebiam uma vaca (!) por cada gol até a época dos atletas multimilionários. As páginas também falam de Pelé, Maradona, Zidane e outros grandes e pequenos nomes desse universo, que para o autor não é só um esporte, mas muitas vezes um retrato de como caminha a humanidade. Galeano, com suas crônicas que mais parecem poesia, nos dá o melhor de suas grandes paixões: o futebol, a literatura e a história.

À venda: CLIQUE AQUI.

Download gratuito do livro digital “Pedacinhos da Copa”

O escritor Paulo-Roberto Andel, decano de publicações sobre o Fluminense F. C., disponibilizou gratuitamente seu mais novo e-book, intitulado “Pedacinhos da Copa”, onde relata suas impressões e lembranças a respeito do Mundial da Rússia.

 

LIVRO “PEDACINHOS DA COPA” – CLIQUE AQUI

 

 

Download grátis do livro “Histórias do Futebol” (da Redação)

O Departamento de Gestão do Sistema do Arquivo Público do Estado de São Paulo disponibiliza diversos livros para download. Entre eles, a edição Histórias do Futebol, que faz parte da coleção Ensino & Memória, de autoria da historiadora Lívia Gonçalves Magalhães, mestre em Estudos Latinoamericanos pela Universidade Nacional de San Martín (Argentina).

O título analisa o esporte favorito dos brasileiros, suas origens de classe, suas relações com a política, seu papel como agregador e fomentador de uma identidade nacional, além de abordar o surgimento dos principais clubes paulistas, a participação do Brasil nas Copas, e os sentidos do futebol nos dias atuais.

A obra conta com imagens do acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo, e com sugestões de atividades pedagógicas para a análise das fontes documentais do acervo.

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR O LIVRO.

Lançamento do livro tricolor ameaçado de destruição na Justiça (da Redação)

Nesta terça-feira, dia 14/11, o escritor Paulo-Roberto Andel realiza uma noite de autógrafos de seu livro “Duas vezes no céu – os campeões do Rio e do Brasil”.

A obra se refere à trajetória vitoriosa do time do Fluminense em 2012, quando conquistou o campeonato carioca e o tetracampeonato brasileiro.

Desde 2014, o livro sofre um processo judicial que chama a atenção pela brutalidade desmedida: um funcionário do Fluminense, Nelson Nunes Peres do Santos, vulgo Nelson Perez, entrou com uma ação requerendo R$ 50.000,00, a busca, apreensão e DESTRUIÇÃO de todos os exemplares de “Duas vezes”, alegando que o autor da obra manipulou uma foto que seria de sua autoria e exclusivamente sua. No entanto, Nelson omitiu seu vínculo empregatício para a Justiça: é funcionário CLT do Fluminense e, pela Lei Pelé, o titular dos direitos patrimoniais de qualquer foto tirada em campo é o Fluminense. Não bastasse isso, o funcionário cometeu uma atitude hedionda, que é a ambição pela destruição de livros, sem contar o pedido de Justiça gratuita que fez, alegando ser fotógrafo freelancer, ganhando apenas R$ 1.500,00 mensais.

O escritor foi contratado pela editora e, por isso, não teria como fazer qualquer manipulação, dado que tinha um contrato para ceder seus originais e, em troca, receber 10% do preço de capa de cada exemplar. A editora assumiu toda a produção e contratou o artista gráfico Guis Saint-Martin, que fez uma aquarela inspirado numa bandeira de torcida organizada.

Em outubro passado, o Fluminense entrou na Justiça requerendo a condição de assistente do escritor e de sua editora à época, a 7Letras, na direção contrária de seu funcionário e afirmando categoricamente que, além de ter realizado a ação com meio ilícitos, não comunicou o clube, que é o proprietário da foto. O caso está na 15ª Vara Cível da Cidade do Rio de Janeiro.

Paulo é um dos escritores de futebol mais publicados sobre um clube no Brasil. Entre autorias e coautorias, publicou onze livros sobre o Fluminense. Há dias, disponibilizou gratuitamente seus livros “Roda Viva” – volumes I e II NESTE LINK.

 

LANÇAMENTO DO LIVRO “DUAS VEZES NO CÉU”

PAULO-ROBERTO ANDEL

TERÇA, 14/11 – A PARTIR DAS 18:30 H

CASA VIEIRA SOUTO – PRAÇA DA CRUZ VERMELHA, 9 – CENTRO – A 20 METROS DO INCA (ESTACIONAMENTO A 100 METROS, NA RUA HENRIQUE VALADARES, 71)

140 PÁGINAS

PREÇO: R$ 25,00 (SÓCIOS DO CLUBE TÊM DESCONTO de 20%)

 

“Confesso que perdi”, livro de Juca Kfouri (da Redação)

 

Testemunha vida de grandes casos da vida brasileira nos últimos 50 anos, passado pelo esporte e a política, o jornalista Juca Kfouri lança seu livro de memórias, “Confesso que perdi”.

Sócrates, CBF, Diretas Já, ditadura militar-empresarial, Corinthians, Revista Placar, Revista Playboy, Máfia da Loteria Esportiva e muito mais.

Uma degustação em PDF pode ser baixada CLICANDO AQUI.

Nelson Rodrigues, sobre Barbosa (por Paulo-Roberto Andel)

O tempo e a eternidade

Amigos, o velho Barbosa está fora do Brasil. Mas não importa e explico: — a ausência do verdadeiro craque é tão ativa, militante e absorvente como a presença viva. Só o perna de pau consegue ser esquecido. Um Barbosa, não. Está na longínqua e quase inexistente Escandinávia e continua sendo fato, continua sendo notícia. Ausente dá uma sensação de presença física.

O velho Barbosa! Digo “velho” e já retifico: — não é velho coisa nenhuma. Amigos, não existe a menor relação entre Barbosa e a sua idade. Ou melhor: — idade e pessoa não coincidem no arqueiro vascaíno. Ele tem o quê? Uns 37, 38 anos. Para as outras atividades, o sujeito pode ter isso ou mais, impunemente. Mas o tempo, no futebol, é rapidíssimo. Um minuto vale um mês ou mais. E, aos 37 anos, o indivíduo é gagá para a bola, e insisto: — o indivíduo baba de uma velhice irremediável. A própria bola, o refuga e trai. E Barbosa continua notícia, continua fato pelo seguinte: — porque é eterno.

E quando Barbosa joga acontece apenas isto: — ele esfrega a sua eternidade na cara da gente. Há dias, escrevi, aqui mesmo, que se trata da eternidade mais viçosa já ocorrida no futebol brasileiro. No comum dos mortais, a vida é uma luta corpo a corpo contra o tempo. O sujeito olha a folhinha e toma um susto ao verificar que estamos em 59. 1959! É o caso de perguntar: — “Já?” Sim, amigos: — Já! Para Barbosa o problema de folhinha e de relógio não existe. É o homem sem tempo, que esqueceu o tempo, que vive sem o tempo, muitíssimo bem. Há os que rosnam: — “Barbosa pinta os cabelos!” De fato, tem já cabelos brancos. Aí o único detalhe de velhice na sua figura ágil, elástica, acrobática.

O problema do arqueiro, porém, não se resume ao desgaste físico. Não. Ele sofre um constante, um ininterrupto desgaste emocional. Debaixo dos três paus, parado, dá ideia de um chupa-sangue que não faz nada, enquanto os outros se matam em campo. Ilusão! Na verdade, mesmo sem jogar, mesmo lendo gibi, o goleiro faz mais do que o puro e simples esforço corporal. Ele traz consigo uma sensação de responsabilidade que, por si só, exaure qualquer um. Amigos, eis a verdade eterna do futebol: — o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota. Vejam 50. Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta da derrota. O gol de Ghiggia ficou gravado, na memória nacional, como um frango eterno. O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da espanhola, do assassinato de Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado “frango” de Barbosa.

Qualquer um outro estaria morto, enterrado, com o seguinte epitáfio: — “Aqui jaz Fulano, assassinado por um frango.” Ora, eu comecei a desconfiar da eternidade de Barbosa quando ele sobreviveu a 50. Então, concluí de mim para mim: “Esse camarada não morre mais!” Não morreu e pelo contrário: — está cada vez mais vivo. Nove anos depois de 50, ele joga contra o Santos, no Pacaembu. Funcionou num time de reservas contra um dos maiores, senão o maior time do Brasil. E foi trágico, amigos, foi trágico! Começa o jogo e, imediatamente, Pelé invade, perfura e, de três metros, fuzila. Fosse outro, e não Barbosa, estaria perguntando, e até hoje: — “Por onde entrou a bola?” Barbosa defendeu e com que soberbo descaro! Daí para frente, a partida se limitou a um furioso duelo entre o solitário Barbosa e o desvairado ataque santista. Foi patético, ou por outra — foi sublime. E porque, na sua eternidade salubérrima, ainda fecha o gol, eu faço de Barbosa o meu personagem da semana.

Publicado na Manchete Esportiva, 30/5/1959, e também em “A Pátria de Chuteiras”, 2013, página 72

Quando éramos reis (da Redação)

Ao som de Waldir Calmon e sua orquestra, com um verdadeiro hino do futebol brasileiro: “Na cadência do samba”, de Luiz Bandeira. A gravação é do ano de 1956. Ao ouvi-la, todos os torcedores com mais de 40 anos de idade embarcam num mundo de sonhos, gols e lances espetaculares.

Tempos em que o futebol abarrotava os estádios brasileiros de paixão, com públicos imensos.

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PUBLICO E RENDA 2

Meio século sem Mário Filho (da Redação)

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Neste sábado, 17 de setembro, completa-se meio século do falecimento de Mário Filho, uma das figuras mais importantes do jornalismo esportivo brasileiro.

CLIQUE AQUI.

Assim noticiou o Jornal do Brasil na referida data.

Colaboração do jornalista Luiz Paulo Silva.

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Por quem os sinos ainda dobram? (por Paulo-Roberto Andel)

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Por quem os sinos ainda dobram?

E vocês, velhos amigos, onde moram agora que não mandam sequer um sinal de fumaça?

Alô, alô, marcianos: aqui quem fala é da Terra. Para variar, estamos em guerra, debaixo de violência, desonestidade, hipocrisia, mentira e injustiça.

Nosso futebol já foi uma espécie de entorpecente do bem: o mundo desabava, mas tínhamos o porto seguro nas tardes de domingo do falecido Maracanã.

Brigamos pelo Didi, discutimos por 1971 e também por 1957. Ah, os clássicos! O perfeito contraste entre o mundo das cores especiais contra o branco e preto. As histórias, as memórias, o drama. Do complexo de vira-latas ao triunfo definitivo no México, foram vinte anos de luta até a batalha final.

Mais dez, Nelson fechou a máquina de escrever.

Mais outros dez, Saldanha desligou o microfone.

Ficou um mar de histórias e recordações, tudo escoado para o lado, porque o que vemos aqui e agora sem vocês é a CBF, a opressão global, os escândalos da Fifa, o mundo corporativo do futebol, cheio de pose e arrogância, que não ousa dizer seu nome para não cerrar fileiras atrás das grades.

Os craques foram ficando cada vez menos craques. Paixão ainda existe, sentimento é terra liberta, mas acontece de vez em quando um sentimento de desolação…

Os sinos ainda dobram por vocês.

A pátria amada, cheia de lágrimas, soluça e ora por dias melhores.

Mas afinal, onde é que vocês foram parar?

Precisávamos de vocês por aqui, ensinando aos prepotentes o óbvio ululante até pararam de fazer tantas besteiras e apresentá-las como coisa importante e duradoura, a começar pelas Laranjeiras. Mas vai dar trabalho, porque será preciso visitar muitos outros logradouros de respeito.

O Brazil não entende o Brasil. É claro que mudamos, mas no âmago ainda mora aquele velho sentimento de que somos iguaizinhos aos nossos antepassados.

Um dia vamos todos nos encontrar e rir disso tudo. Mas já que vai demorar um tempo, que tal vocês nos darem umas dicas de como podemos sair deste lamaçal em que nos metemos? Pode ser carta registrada mesmo. Psicografada, pois.

Se o velho Ivan Lessa estiver aí por perto, será um favor mandarem um abraço a ele também, recordando dois de seus melhores escritos:

“Conseqüentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro.

Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro.

Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador.

E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley?

A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.”

“O verdadeiro torcedor, assim como quem não quer nada, quer tudo. O verdadeiro torcedor é pela zebra e o circo pegando fogo fora de campo. O verdadeiro torcedor pouco liga para milionários dando pontapés e estragando gramados.

O negócio do verdadeiro torcedor é ver os outros milionários, os da mídia, quebrando a cara. Momentaneamente, ao menos. O verdadeiro torcedor sabe que os outros torcedores, coitados, logo vão embora e de tudo se esquecer depois de cantarem seus estribilhos, soprarem nisso ou naquilo outro e voltar a esperar outros quatro anos.”

@pauloandel

 

Saldanha 99 (por Paulo-Roberto Andel)

copa união 1987 2

Vivo estivesse, João Saldanha completaria hoje 99 anos.

É de se imaginar o que faria e diria caso estivesse por aqui.

Mas mesmo sua ausência física não o exime de ser uma referência brasileira permanente. No futebol, no carnaval, na política, no cotidiano.

Acompanhei o trabalho de Saldanha em seus últimos doze anos de vida por vários motivos. Depois, ídolo eternizado, mergulhei em seu passado e me assustei com o fato daquele senhor tão simpático e divertido (do jeito dele) ter sido uma verdadeira enciclopédia para se entender o Brasil de seu tempo, o de antes e o pós. Como ainda pode ser a síntese e a antítese de tanta coisa?

Pensando em João Saldanha você consegue refletir sobre o que chamam de novo jornalismo, esse que aí está com claros propósitos de favorecimentos pessoais em detrimento da transparência da informação.

Ou sobre a hipocrisia de muitos que discutem política, condenando na classe as más práticas que exercem cotidianamente.

Ou sobre um Rio de Janeiro que há muito deixou suas tradições autênticas de lado em troca de certo gigantismo oco.

Sobre doutores das ciências curtas e apagadas que veem em qualquer obrigação de Estado a bandeira do comunismo, também hipocritamente utilizando tal argumento para simplesmente deixar de lado o bem comum em prol do particular.

Saldanha me faz pensar em muita coisa.

Inesperadamente, com o passar do tempo, tornei-me um escritor.

Devo muito disso a ele, que tanto li na tenra juventude. Ainda leio. Também assustei-me, outro dia, ao lê-lo na Biblioteca Nacional: o texto remetia imediatamente à sua fala. Força da natureza.

Vivo estivesse? Saldanha aí está o tempo inteiro. Taí um sujeito que eu queria muito ter visto na arquibancada do meu Fluminense.

@pauloandel

Fla, Flu e Bangu: as cores de cada paixão (da Redação)

capa livro paulo rocha

O cronista Paulo Rocha, decano de várias redações e ex-editor do Jornal dos Sports, atualmente titular dos sábados no site Panorama Tricolor, lança em julho o livro “Fla, Flu e Bangu: as cores de cada paixão”, de sua coautoria ao lado dos também jornalistas Carlos Molinari e Sergio Du Bocage, onde cada um dos escritores aborda seu time de coração.

O livro já se encontra em pré-venda no SITE DA EDITORA NOVA TERRA.

O Jornalismo Esportivo tem uma característica que o diferencia de todos os demais. Ele fala de paixão, principalmente quando trata de futebol. Mais que isso: quem o pratica é um apaixonado pelo que faz. E como falar de futebol, sem ter um clube de preferência para torcer? Misture tudo isso e veja o quanto é difícil, para um jornalista esportivo, ser imparcial e transmitir esse sentimento para leitores, ouvintes e telespectadores. Mas eles conseguem.

“Fla, Flu e Bangu – as cores de uma paixão” é uma chance que a Editora Novaterra oferece aos jornalistas Sergio du Bocage, Paulo Rocha e Carlos Molinari de colocarem para fora essa paixão. E o que vemos são crônicas informativas, curiosas, pessoais e que certamente vão mexer com o coração dos milhões de torcedores desses três clubes.

Você está convidado a participar desse autêntico triangular. Temos certeza de que cada capítulo será um jogo inesquecível para você. Boa leitura.

Formato: 14 x 21 cm – Brochura
Número de páginas: a definir
ISBN 978-85-61893-50-7

livro paulo rocha

Uma foto perdida no tempo (por Flavio Jacobsen)

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Toda vez que penso no Brasil, o país que poderia ter sido, o país que foi e o que é, me vem à mente a imagem de Juscelino Kubitschek reunido no Brasília Palace Hotel em 1958. Animada comitiva, vinda de um DC3 do Rio, cercava o presidente e ouvia de um rádio transistorizado com antena esticada no último, a final da Copa do Mundo entre Suécia e Brasil.

O presidente bossa nova parece incomodado na foto, de braço em riste como pedisse para pararem a algazarra, enquanto todos de braços erguidos comemoravam um dos gols do timaço de Pelé, Garrincha e companhia. É provável que ruídos de ondas curtas atrapalhassem a transmissão e a atenção do atento e desconfiado – como sói ao bom mineiro – JK.

Há algo perdido naquela foto. A começar pelo autor, até hoje desconhecido. Pode ter sido o tio do cafezinho.

A partir daquele ano o Brasil seria vanguarda diferenciada em diversos campos. No cinema novo, na música bossanovista, na literatura dos concretos paulistas, na arquitetura de Niemeyer, nas artes, teatro de arena e a partir daquele jogo, também nos esportes. Seria campeão de basquete, tênis, boxe e atletismo anos seguidos. Nelson Rodrigues versou que finalmente perdemos naquela tarde em Estocolmo (manhã no Brasil) o malfadado “complexo de vira-latas”.

Aquele país, em que pese a infraestrutura ainda de dar pena, por incrível, era cortado por trens de norte a sul. Gigante exportador de café e predominantemente agrícola, havia ainda muito mais Jecas Tatus que Haroldos de Campos, por óbvio, ao longo do extenso território. No meu delírio, é possível dizer que o Brasil não era nenhum Pelé. Era, vá lá, um Zito. Segurava a bronca lá atrás, e dava conta do recado e suporte ao primeiro mundo, este na linha de frente. Tudo com muita elegância, a bem da verdade. Quem viu Zito jogar, ou como eu apenas ouviu falar, sabe a que me refiro.

Como anos depois viria a observar Tom Zé, de forma extremamente charmosa, em muito pouco tempo o país deixou a condição mais baixa do universo civilizado, o de fornecer matéria prima, para o mais elevado: provedor de cultura. Era o país do futuro. Que coisa.

Penso sempre naquela foto. E junto com a lembrança da imagem vem a pergunta inevitável: onde foi que erramos? Algumas respostas surgem de imediato. Sem a ingenuidade da juventude já sabemos todos que, por exemplo, foi no período JK que o desmonte dos trilhos começou. O transporte por trens talvez seja o elemento mais estratégico da
infraestrutura de um país. Isso pra citar um exemplo, bastante pertinente quando vemos a influência das grandes empreiteiras do cimento no universo político da nação. Perdemos o trem, fomos de busão. Daí o atraso, os senhores nos desculpem.

Depois de alguns anos de confusão generalizada, todos sabemos o que aconteceu. A festa acabou. Veio a ressaca pesada do grande carnaval, em que heróis e vilões se revezaram no meio de uma passarela imaginária, agora emitindo seus rancores via planalto central. Anos de chumbo e tudo o mais.

Há algo mais perdido naquela foto. Um país que é apaixonado pela ficção novelística, a que muitos creditam o advento da televisão, em ledo engano. O brasileiro consumia vorazmente folhetins impressos desde o século 19, e as novelas de rádio paravam o país. “O Direito de Nascer” deu briga de família. Vizinhos se reuniam para ouvir a radionovela, vovó me contava. Livros e enciclopédias eram grandes fontes de renda, vendidas de porta em porta a uma classe média que crescia a olhos vistos, junto com as cidades. O Brasil das ondas de rádio está perdido naquela foto. Depois entregue aos raios catódicos, a paixão folhetinesca apenas continuou.

No hedonismo que se seguiu em décadas seguintes, Pelé se tornou o homem mais conhecido do mundo. Em processo inverso e misterioso, o país a que ele pertence foi sendo esquecido. Isolado por ditadura, quem sabe. Por acabrunhamento ou interesse que não nos ocorre.

Mas malandro é malandro e mané é mané. Olha nós aqui outra vez!

Voltamos no final do século. E dá pra dizer que reentramos muito bem, armados de guitarras elétricas e tambores de maracatu, reforçados por Romário, Ronaldo, Bebeto, Ronaldinho e Rivaldo. Deu pro gasto e ainda sobrou um tanto pra cachaça. Adentramos os aguardados anos 2000 triunfantes. Estamos aí.

Meu delírio termina aqui. Há outro processo turbulento nos ameaçando para o limbo de um período importante da História novamente. É por isso que não consigo deixar de pensar que há algo mais perdido naquela foto. Pode ser no gesto do presidente pedindo calma… calma.

Flavio Jacobsen é escritor e compositor. Autor de Uns Contos no Bolso (Kottrer Editorial, 2015). Artista de rock, canta e toca guitarra na banda Gruvox.

CINEFOOT 2016 em campo (da Redação)

A sétima edição do CINEFOOT – Festival de Cinema de Futebol – começa nesta quinta-feira no Rio de Janeiro, com atrações especiais e entrada franca, depois passando por Caté, Recife, São Paulo, Belo Horizonte e Vitória.

Uma fantástica oportunidade de testemunhar o encontro de duas artes, o cinema e o futebol, mas por diversas perspectivas de reflexão: a crítica social, a análise das épocas, um mergulho no caminho do esporte que leva a entender sociedades, comportamentos e fatos.

Visite aqui o site do CINEFOOT.

E a programação completa AQUI.

abertura cinefoot 2016

Veja uma chamada de 2015:

E o documentário “Geral”, de Anna Azevedo, 2011.

“O verdadeiro torcedor”, uma crônica de Ivan Lessa (por Paulo-Roberto Andel)

ivan lessa foto

O verdadeiro torcedor não se dá a conhecer. Embora um conoisseur, prefere trabalhar – seu ofício é duro – em silêncio. Tem razão. Sua prática é feroz, exige disciplina e nem todos o compreenderiam.

O verdadeiro torcedor não pinta a cara ou qualquer outra parte de seu corpo, não veste a camisa de seleção alguma, não agita bandeiras, não ergue a voz em coro com outros. O verdadeiro torcedor é um animal pensante doméstico. Não vai aos jogos. Principalmente os da Copa do Mundo. Escolhe, no entanto, torneios importantes que propiciem amplo espaço na imprensa, televisão ou mesmo rádio.

O verdadeiro torcedor gasta seu dinheiro em jornais, publicações especializadas, cadernos em espiral e canetas esferográficas. E uma tesoura razoável. No seu quarto, um território proibido a estranhos, tem colado nas paredes tabelas coloridas e algumas fotos e recortes pregados com uma massinha azul que não deixa marca ou mancha. Na mesa de trabalho, ao lado do computador, o caderno de notas, a tesoura (“Recortar é viver”, este seu lema) e uma Bic, de preferência azul.

O verdadeiro torcedor passa entre 2 a 3 horas por dia folheando os jornais em busca de colunas relativas aos diversos jogos. Degusta análises, com ênfase naquelas que ousem previsões. Não são difíceis de encontrar: o peixe morre pela boca, o jornalista esportivo pelo texto. O verdadeiro torcedor passa pelo menos uma hora vendo e ouvindo, com atenção, as observações feitas pelos bem pagos comentaristas profissionais durante os intervalos e as versões compactas dos jogos da Copa. O verdadeiro torcedor ri fácil e, sério, toma notas.

O verdadeiro torcedor é um perfeccionista. O verdadeiro torcedor sabe, como os mais desbragadamente apaixonados, o nome e a ficha completa de jogadores mais populares como Cristiano Ronaldo, Messi, Robinho, Maicon, Eto’o, Casillas, Rooney e Dempsey, como também daqueles menos cotados, como Zigic, Özil, M’bohir, Yussuf e Park-Ji-Sung.

Até mesmo os técnicos não fogem a seus olhos dourados de atenção: Otto Rehhagel, Huh Jung-moo, Gerardo Mantino e Rajevac são magos feiticeiros de sua intimidade. O verdadeiro torcedor desconhece limites para o esporte das multidões em sua modalidade máxima, pois sabe de cor e salteado até mesmo o nome de todos os estádios sul-africanos, dos quais prefere citar, em voz baixa e a sós, como se recitando uma incantação, os de Koftus Versfeld, Peter Mokaba, Mbombela e o de Moses Mabhida.

O verdadeiro torcedor tem, por vezes, seus exageros, pois é humano, nada mais que humano. Saber uma linha do hino nacional da Argélia, sob qualquer ponto de vista, não deixa de ser levar a idiossincrasia a seus mais desvairados limites (É assim: Qassaman Binnazzilat Ilmahigat e quer dizer “Juramos pelo raio que destrói”).

O verdadeiro torcedor freme e goza de prazer é quando encontra, como foi o caso, um comentário-prognóstico de David Hytner, doGuardian, na mesma manhã em que, algumas horas depois, a Alemanha foi perder de 1 a 0 para a Sérvia:

“Joachim Löw revitalizou sua equipe (a alemã, frise-se) com uma abordagem técnica audaz, saudável e multicultural”. E, mais abaixo, “A formação por ele escolhida a dedo abunda com a exuberância e o frescor da juventude”. Assim prosseguiu o notável David Hytner, sem sequer esquecer do trema sobre o “o”de Löw, jabuzelando e vuvulanando por umas três colunas.

A Sérvia? Sob a batuta de Raddy Antic? A Sérvia definitivamente não estava à altura de conter as feras de Löw que, até então, já haviam desembestado ganhando de 4 (de quatro!) da – seria manhosa, David Hytner? – Austrália, orquestrada sob a batuta do – seria capcioso, David Hytner? – Pim Verbeek.

O verdadeiro torcedor, assim como quem não quer nada, quer tudo. O verdadeiro torcedor é pela zebra e o circo pegando fogo fora de campo. O verdadeiro torcedor pouco liga para milionários dando pontapés e estragando gramados.

O negócio do verdadeiro torcedor é ver os outros milionários, os da mídia, quebrando a cara. Momentaneamente, ao menos. O verdadeiro torcedor sabe que os outros torcedores, coitados, logo vão embora e de tudo se esquecer depois de cantarem seus estribilhos, soprarem nisso ou naquilo outro e voltar a esperar outros quatro anos..

O verdadeiro torcedor não carece de matéria. N’est-ce pas, cari amici italiani?

(Publicado originalmente na BBC Brasil em 21 de junho de 2010)

Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos – e um torcedor fanático do Botafogo -, Ivan Lessa fez parte do grupo que colaborou e que, durante muito tempo, fez sucesso no jornal “O Pasquim”. Carioca, filho de Orígines Lessa e Elsie Lessa, escreve valendo-se de um humor cheio de ironias. Auto-asilado na Inglaterra, segundo ele por ter-se desencantado com o Brasil, trabalhava na BBC de Londres. Publicou em praticamente todos os grandes veículos da imprensa brasileira.

Ivan faleceu aos 77 anos, em Londres, onde vivia, em 09/06/2012.

Sobre Teixeira Heizer (da Redação)

teixeira heizer e maurício menezes

Da EBC – Douglas Corrêa/Jorge Wamburg

Morreu ontem (3), no Rio de Janeiro, o jornalista Teixeira Heizer, de 83 anos, após sofrer uma parada cardíaca, um dia após o lançamento do seu mais recente livro A outra história de cada um. Jornalista esportivo, começou no rádio, na década de 1950, e trabalhou nos últimos anos como comentarista nas transmissões de futebol e nos debates do canal SporTV.

Foi fundador da Rede Globo e se orgulhava de ter o crachá funcional número 01, como primeiro contratado da emissora. Trabalhou em vários veículos ao longo da carreira, também na televisão, e passou pelas redações dos jornais Diário da Noite, Diário de Notícias, Última Hora, O Dia,  PlacarVeja e por vários anos trabalhou na sucursal do Estado de São Paulo no Rio de Janeiro, além de ter sido gerente de Jornalismo da extinta Empresa Brasileira de Notícias (EBN) e da Radiobrás, nos anos 80.

Heizer foi ainda professor de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Gama Filho. Ele escreveu dois livros sobre futebol, sua grande paixão: O Jogo Bruto das Copas do Mundo e Maracanazo – Tragédias e Epopeias de um Estádio com Alma, lançado em junho de 2010, contando suas memórias sobre a final da Copa do Mundo de 1950, no Rio de Janeiro, quando a seleção brasileira foi derrotada pela uruguaia, no Maracanã, por 2 a 1.

Ao Memória Globo, Teixeira Heizer lembrou que o apreço pela língua portuguesa era uma de suas principais marcas: “Sempre que eu escrevia [no jornal], eu prestava atenção porque alguém ia ler o que eu fizesse. Então eu construía o melhor para oferecer ao leitor. Até hoje, bate no meu ouvido: Ele tem o gosto pela frase”.

Primeiros passos

O primeiro trabalho no jornalismo foi na redação do jornal Correio Fluminense, em 1953. Um ano depois, já fazia parte da equipe de repórteres da Continental, emissora de rádio carioca cujo slogan era ser “Cem por cento esportiva”. No início da década de 1960, começou a trabalhar como comentarista esportivo na Rádio Globo, ao lado de profissionais como Waldir Amaral, Luiz Mendes e Raul Brunini.

Pela Globo, Heizer participou da cobertura da Copa do Mundo do Chile (1962), quando a seleção brasileira de futebol comandada conquistou o segundo título mundial. No ano seguinte, o jornalista fez parte da equipe que cobriu uma excursão da seleção brasileira pela Europa. Essa cobertura deu à Rádio Globo o primeiro lugar de audiência entre as emissoras cariocas na época.

Teixeira Heizer fez parte da equipe de profissionais que participaram da inauguração da TV Globo, em 1965, e foi contratado com o crachá número 01 da empresa. Heizer foi o responsável também pela criação dos primeiros programas esportivos da emissora, como o Em Cima do Lance e Por Dentro da Jogada. Fazia parte também do TeleGlobo e chegou a apresentar o programa ao lado da atriz Nathalia Thimberg e do locutor Hilton Gomes. O telejornal foi o primeiro a ser exibido pela emissora.

O jornalista será enterrado nesta quarta-feira (4) no Cemitério de Itaipu, em Niterói, região metropolitana do Rio, em horário a ser ainda definido pela família.

teixeira heizer livro

Do jornalista Fernando Brito, do blog Tijolaço

Eu poderia escrever sobre a importância de Teixeira Heizer no jornalismo esportivo, um dos pioneiros e mais independentes e apaixonados, como éramos nos anos em que o futebol era motivo de paixão.

Poderia escrever sobre sua importância para uma geração de companheiros teimosos, remadores contra a maré, na qual se incluem Juca Kfouri e José Trajano?

Escrevo, porém, sobre algo muito pessoal.

Quando me mudei para Niterói, construindo uma casa do nada, sem economias,Teixeira Heizer soube disso.

Por artes do destino, uma indenização trabalhista, se não me engano do Estado de São Paulo, havia permitido que ele comprasse uma pequena escola, o São Marcos, que sua mulher e seu filho Marcos – grande músico, já morto, agora – dirigiam.

Escola boa, aliás, muito boa, que acabaria sendo vendida para outro grupo educacional.

Teixeira queria porque queria que meus filhos estudassem lá, sem pagar.

Óbvio que não aceitei, mas ele então fez um desconto que tornou viável erguer casa e escola para os meus guris, sem que eu perdesse a vergonha na cara.

Homens bons morrem, que pena.

Leia também no blog de Marcelo Auler sobre Teixeira Heizer – http://www.marceloauler.com.br/teixeira-heizer-nos-deixa-o-jornalismo-esta-acabando-aos-poucos/

2014 – O espírito da Copa (por Zeh Augusto Catalano)

Um dos principais objetivos deste PANORAMA DO FUTEBOL é ser uma memória não seletiva do mundo do futebol. Em nossas pesquisas para os livros que estamos escrevendo – projetos a serem lançados em 2016 – ficou claro para nós que alguns eventos fundamentais do nosso futebol, dos anos 1970, 80 e 90, foram simplesmente esquecidos das matérias televisivas ou dos sites na internet. Com isso, é quase certo que pessoas na casa dos seus 20, 25 anos, simplesmente desconheçam por completo tais fatos. Isso ajuda, e muito, na criação de mitos e na assimilação de inverdades.

Tempos atrás, numa discussão sobre o meu Vasco da Gama, lembrei um “ilustre” vascaíno do seu esquecimento do título brasileiro da segunda divisão de 2009, quando este listava os feitos do Vasco de 2000 pra cá. A resposta foi surpreendente: Isso é pra ser esquecido – Como a visita e vitória na 2a divisão fossem algo vergonhoso, a ser omitido da história do clube.

Esse raciocínio se estende às derrotas e fracassos, principalmente na literatura. Os livros se concentram nos grandes craques, grandes títulos, grandes vitórias. Com isso, personagens fantásticos são esquecidos. Grandes histórias são perdidas no tempo, exatamente porque elas não têm como pano de fundo uma grande vitória, um título. E se as editoras operam com a teoria de que “Livro sobre futebol não vende”, que dirá um livro que traga em sua alma uma derrota épica.

Imaginem a quantidade de livros ufanistas teríamos se Neymar Jr e companhia tivessem ganho a Copa? Talvez até alguns mais corajosos se aventurassem a lançar algum se o Brasil tivesse sido derrotado nos pênaltis ou se, por exemplo, a bola do último minuto de Pinilla, do Chile, ao invés de beijar a trave, fosse pra estopa.

Mas não foi isso que aconteceu. Ocorreu a hecatombe que todos viram, o apocalipse do Mineirão, os minutos mais vergonhosos da história do futebol brasileiro. Ali, naqueles minutos, certamente vários projetos foram postos de lado, apagados, esquecidos, pois ninguém daria mais um centavo por aquilo. Neymar não iria mais erguer a taça e os brasileiros só queriam apagar da memória aquela vergonha.

Quantos livros você viu lançados sobre a Copa de 2014? Pois é…

Copa12tela

Só que a gente não pensa assim. “2014, o Espírito da Copa” foi escrito por Paulo Roberto Andel, João Garcez, por mim e por mais dezessete pessoas que, no calor dos acontecimentos, relataram aquilo que viveram na mais espetacular das Copas. Os textos, de até três páginas, são publicados na ordem cronológica dos fatos, e acompanham desde as manifestações anteriores à Copa até a coroação da grande campeã. Todos, sem exceção, foram escritos durante o evento, e são datados. São textos com resenhas de jogos, comportamento das torcidas e dos “gringos” dentro e fora dos estádios, crônicas sobre personagens, por autores no Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Salvador. Várias visões e textos completamente distintos daqueles dias sensacionais.

Muitas páginas são dedicadas aos famosos 7 x 1. Principalmente a capa do livro. A foto que a ilustra foi feita minutos depois da “tragédia”, pelo Paulo Andel. Ao sair de casa, no Centro do Rio, eternizou a cena. Dois meninos, vestindo a camisa dez amarelinha, jogavam uma animada pelada, acompanhados pelo olhar vago do cidadão das ruas que, sentado ao fundo, assistia a tudo inerte. Apesar da maior derrota da história do futebol brasileiro, a vida continuava. O amor à bola seguia incólume.

Na contracapa, o projeto original previa o número 14 da camisa da seleção, representando o ano do certame. Depois daquele dia, decidimos trocar pelo 7, o número que vai assombrar o futebol brasileiro por longa data.

Nosso objetivo foi imprimir um retrato vivo do que foi a Copa. Acredito que tenhamos conseguido.

Caso tenha interesse em adquirir um exemplar, ele custa R$ 40,00 e pode ser comprado diretamente com um dos autores. Por favor, contacte Paulo-Roberto Andel – pauloandel@gmail.com