Algumas breves palavras sobre futebol

Para mim e muita gente, futebol tem muitos significados. Um deles é a esperança de, a cada quarta e domingo, voltar a ter onze anos de idade, rever um Maracanã que já não existe e, no campo, espiar uma hora e meia do melhor futebol do mundo. Doces ilusões que, às vezes, se materializam.

Foi o caso desta quarta. Fluminense e Atlético fizeram um jogaço, daqueles que não se parecem com o futebol de hoje, nem deste século. Golaços, grandes lances, disputas, lambanças, garra e talento.

Antes da partida, eu caminhava para casa com certa tristeza por problemas que aqui não cabem, meus, dos outros, da minha cidade e do meu país. Tão triste que desisti de ir para o Maraca e resolvi ver o jogo em casa, sozinho. Esperava um clássico normal, rigoroso, até careta como os atuais, mas aí é futebol, amigos: a surpresa aparece a cada esquina.

Eu, meu copo de refrigerante gelado, a tela da TV praticamente como se fosse dentro do campo, os amigos no WhatsApp sofrendo com suas TVs e também na arena. E tome gols, tome lances bonitos e jogadas que remetiam ao velho UUUUUUHHHHH de muito tempo atrás.

Quando o Fluminense joga, meu mundo para e tudo se mistura. É assim há quase cinquenta anos. Eu me lembro do dia em que conheci Félix no álbum de figurinhas do meu pai. Eu me lembro do time de botão do Flu que ele me deu em 1975 em plena Estrada de Botafogo no terreiro de Dona Nininha e Seu Arlindo – que tinha um Aero Wyllis com banco vermelho. E também me lembro de Paulo Cezar Lima, craque campeão do mundo e colunista deste Museu da Pelada, cobrando três escanteios mortíferos contra o Flu em 1980 – todos fora da marca de cal.

[Então, bate uma saudade imensa dos meus pais e do meu irmão. Eu choro

Outro dia o Edinho fez 67 anos. Eu estava lá quando ele bateu o pênalti numa quarta-feira de chuva, fez o gol e ganhamos por 4 a 0. Fez 40 anos. Na volta, eu e meu amigo Floriano Romano, hoje artista consagrado, esperamos o ônibus por um tempão. Dois garotos de treze anos.

O jogo é quente, Luiz Henrique arrebenta, André corre por toda parte, o Atlético dá suas pancadas, Hulk fica nervoso sem trocar de cor e o Turco faz besteira. Cano faz um gol de barriga e todos os tricolores choram por um instante, lembrando aquele gol de barriga inesquecível em 1995. O primeiro tempo terminou 3 a 2 pro Flu, o segundo fechou em 5 a 3. Luiz Henrique é o melhor em campo, um garoto simples que sorri feliz e já está a caminho da Europa. Para muitos, foi o melhor jogo do Brasileirão. Para outros, o melhor de 2022.

Em duas horas, eu me esqueci da tristeza, dos problemas, das dívidas, das ameaças, das falsidades que encontramos a todo instante, da empáfia oca e só pensei no futebol. Na bolinha que sobe no tiro de meta, se perde no figurino da arquibancada e logo quica na grama. Nos uniformes em campo. Sonhei que meu pai estava ao meu lado, que minha mãe me dava um beijo, que meu irmão sorria. Sonhei com a Marina. Sonhei com a nuvem espessa de pó de arroz que me fez perseguir o Fluminense para sempre.

Acaba o jogo e a insônia vem forte. A emoção da vitória se junta a fotos, memes e gozações porque o rival Flamengo perdeu. Os gols são reprisados no telejornal, nas resenhas e, perto de uma hora da manhã, duas cerejas do bolo: Leo Batista aparece na televisão e fala de coisas belas. Depois, o VT de Flu e Galo. O Leo é voz obrigatória para qualquer torcedor que tem 50 anos ou mais – ele nos dá a falsa e maravilhosa sensação de eternidade. O VT é para ter aquele gostinho inesquecível das reprises da TVE aos domingos à meia-noite, e isso remete a Luiz Orlando, Achilles Chirol e outras feras.

A doce ilusão me oferece uma madrugada de 1980 ou 1983. A realidade é 2022, onde nem toda quarta-feira irá me sorrir com um grande jogo de verdade, mas para quem chegou aos 53 anos como eu, os versos de um gênio – tricolor – como Belchior são contestados: por duas horas de futebol, sonhar é melhor que viver. Quando a anestesia da paixão para, a gente espera o próximo jogo e o próximo sonho. Deve ser assim com meu amigo Edgard, que me contou de como seu pai estaria feliz com o 5 a 3.

Duas e quinze da manhã. Meu pai me puxa pela mão enquanto andamos pelo corredor lotado, até que chegamos à rampa da UERJ e descemos saboreando cada passo de uma tarde qualquer de futebol. Um dia eu ainda vou estudar lá, podem acreditar. E vou jogar campeonatos lá com meu time de botão.

Agora, como se dorme olhando para o teto e trocando os problemas pelas imagens do gol de barriga? É o Renato, é o Cano, é o sentido da vida.

[Esta coluna é dedicada a Edgard Freitas Cardoso, à memória de seu pai e da família Andel

@pauloandel

Eu, redonda

Há trinta e oito anos vivo em berço esplêndido e profunda solidão. Numa breve espiada, posso ver o esplendor da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde vim parar contra a vontade mas cumprindo meu destino. Estou só, absolutamente só.

Tudo começou num dia que prometia ser o mais feliz da história do Brasil, mas não deu certo. As ruas eram cheias de bandeirinhas coloridas, o asfalto era pintado de verde e amarelo, Pachecão para todo lado. Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Cerezo, Sócrates e Zico; Falcão, Serginho e Éder. Onde poderia ter alguma falha?

O país parou para ver Brasil e Itália pela Copa de 1982 e não é difícil imaginar que, em 100 jogos, o nosso timaço venceria o timaço deles em 99. Mas como 99 não é 100, perto da hora do almoço a Seleção viveu uma espécie de nova final de 1950, e Paolo Rossi se transformou em dos maiores personagens de todas as Copas do Mundo. Quando o jogo acabou, Copacabana – o bairro mais barulhento da Terra – era um silêncio de dois mil cemitérios. A Itália ganhou o jogo dos jogos por 3 a 2, primeiro passo rumo ao tricampeonato mundial que lhe pertenceria em breve.

Os garotos, meus amigos, resolveram se reunir e jogar bola numa das quadras da Lagoa. Que remédio seria melhor ali do que uma boa pelada? Não havia telefone, uns foram na casa dos outros e logo éramos sete. Lembro que fizemos uma verdadeira procissão solitária do meio de Copacabana até o Corte do Cantagalo, quando então surgiram alguns carros. Antes disso, parecia que havíamos cruzado um deserto formado por prédios abandonados: não havia uma pessoa às janelas, nem nas calçadas, nada. Os porteiros desapareceram. Bancas de jornais, padarias, supermercados e botequins fechados. Ninguém ligando nos orelhões. O asfalto completamente vazio. Por alguma razão eu preferia não ter ido, mas não tive escolha: o futebol é minha sina. Nem todo mundo só faz o que quer.

Tivemos a exata noção da tragédia nacional quando chegamos aos campos da Lagoa. Normalmente abarrotados e com uma fila de fora, não hospedavam uma alma viva sequer. Não tinha a carrocinha de Kibon por perto, nem sinal do moço que vendia tubos de bolinha de sabão para as crianças. Alguma coisa nos fazia crer que, naquela tarde, éramos todos órfãos. Particularmente, eu me senti uma verdadeira estrela solitária, embora contasse com a simpatia de todos os amigos presentes.

Entramos na quadra, sortearam os times e me posicionei para o jogo. Começou. A quadra era só nossa. A temperatura era agradável. O Brasil havia perdido a maior partida de sua história, mas estávamos na Lagoa para manter a chama acesa dos nossos dias.

Um chute, uma dividida, canela contra canela. Fogo contra fogo. Corríamos para animar o jogo e desarmar a tristeza de nossas vidas. Tudo ia bem até perto dos vinte minutos, quando houve uma disputa perto da área. Marco Antônio, meu velho amigo que tinha uma verdadeira patada atômica nos pés, acabou me acertando em cheio, no peito. Uma bomba! E a nossa pelada acabou exatamente ali.

Poucos segundos depois, ainda sem recobrar os sentidos, o que me lembro é de ver meus amigos desesperados, tentando me acudir enquanto nos afastávamos involuntariamente. Alguém tentou me puxar, o outro chorava, alguém resmungava mas não teve jeito. Sofri um golpe fatal. Não morri, mas perdi meus amigos para sempre e isso me faz sofrer, a minha carreira foi encerrada também. Nunca mais participei de um jogo. Nunca mais voltei a ver meus amigos. Eles bem que tentaram me acudir, mas foram derrotados pela Lagoa Rodrigo de Freitas, e reconheço que mergulhar nela seria arriscado demais. Ainda tenho na memória as imagens deles indo embora de volta ao Corte do Cantagalo, cabisbaixos, chorosos mesmo.

Desde então, a minha vida tem sido ouvir ao longe outros garotos gritando e brincando, às vezes rindo, às vezes brigando também. Há dias de silêncio e outros de muito barulho, geralmente nos fins de semana. Muitos gols, vitórias e derrotas, ídolos e vilões, para tudo se desfazer e se refazer. Ultimamente a pandemia espantou todos os jogadores. Torço para que voltem logo, me alegra. O que me dói mesmo é não poder mais participar da festa do futebol, de brincar, de ser a estrela do jogo.

No meio da Lagoa Rodrigo de Freitas, em permanente flutuar, passo meus dias e noites. Ninguém me percebe, vivo entre braçadas imaginárias e o vaivém das pequeninas ondas. Tal como disse lá em cima, vivo em berço esplêndido mas também numa desilusão. Tudo o que eu queria era voltar ao jogo. Onde foram parar meus amigos? Será que estão todos vivos, com saúde? Espero que sim.

Não sou de ferro, mas de borracha e por isso continuo aqui. E penso naquele dia, penso nos meus amigos. Penso no dia em que o Brasil era todo nosso, até que Paolo Rossi foi nosso vilão. Nos dias de sol e de chuva eu penso naquele jogo, naquela tragédia inesquecível. Eu sei o que é o futebol e o que é a solidão, mas ainda sonho: imagine se alguém passa de barco e me resgata? Voltar à quadra seria renascer. Mas, pensando bem, parafraseando Frank Sinatra, para quem teve uma vida como a minha, basta uma única vez.

@pauloandel

(Baseado em fatos reais e livremente inspirado em “Das memórias de uma trave de futebol em 1955”, de Sergio Sant’anna)

O dia do Rei Artur, há 37 anos

Há exatos trinta e sete anos, num feriado de muita chuva no Rio de Janeiro, o Bangu cumpriu uma de suas atuações históricas contra o Flamengo, aplicando uma sonora goleada pelo placar de 6 a 2.

Foi uma tarde-noite de Arturzinho, o maestro banguense da camisa 10. Marcou quatro gols na partida e se tornou um dos seis jogadores na história a conseguir tal feito em cima do Flamengo. Um deles foi antológico, da intermediária, encobrindo o pobre – e jovem – goleiro rubro-negro Abelha, à época substituindo Raul Plassmann. Aliás, é bom que se diga: imediatamente após o jogo, houve uma tentativa injusta de transformar Abelha no vilão máximo daquela partida, no único culpado, por ter cometido falhas clamorosas no clássico, o que na verdade não aconteceu exatamente com a tônica da ocasião. No terceiro gol, socou uma bola fraca e, na consecução do lance, escorregou na verdadeira lama da pequena área. E no sexto gol, rebateu um chute forte de Ado que Arturzinho, sempre ele, aproveitou. É certo que Abelha falhou, mas nem de longe foi o único culpado pelo massacre banguense: a imprensa esportiva foi unânime em afirmar que o Alvirrubro de Moça Bonita poderia ter feito tranquilamente mais três ou quatro gols, enquanto o time flamenguista jogava absolutamente atônito. Por sinal, a grande falha na partida, sem comprometer o resultado, foi justamente do goleiro banguense Toinho, soltando uma bola fácil para o ponta Robertinho descontar a goleada. E é bom que se diga: o Bangu tinha um timaço comandado pelo treinador – e eterno xerife – Moisés, além dos gordos “bichos” pagos pelo mecenas Castor de Andrade. Basta falar de feras como Mário, Marinho, Fernando Macaé e o jovem ponta-esquerda Ado.

Mas, afinal, o que dera no Flamengo daquele momento? Depois de ganhar o tricampeonato brasileiro, veio um golpe fatal: a venda de Zico para a italiana Udinese, que abalou todos os flamenguistas do mundo. E a campanha rubro-negra na Taça Guanabara sofreu um forte abalo depois dos 3 a 0 sofridos do Botafogo, num clássico que derrubou o treinador Carlos Alberto Torres, toda a comissão técnica e até a diretoria do clube da Gávea. Apesar de ainda ter um timaço, o Flamengo acusou o golpe da perda do Galinho de Quintino. Mas se recuperaria em breve, conquistando a Taça Rio e disputando o triangular final do Campeonato Carioca de 1983.

Curiosamente, na mesma competição o Flamengo viria a vencer o Bangu em outras três partidas, marcando seis gols e sofrendo um, mas mostrando que no futebol não se compensa uma goleada apenas com rigor matemático. Depois daquele massacre de 7 de setembro, o Fla fez 3 a 1 pela Taça Rio (já com um time remodelado pelas voltas de Tita, Cláudio Adão, mais as contratações de Lúcio e Edmar), 1 a 0 na final da própria Taça em jogo extra e, por fim, na última partida de toda a competição: 2 a 0 no triangular final de 1983, com os jogadores do Fluminense comemorando o título na Tribuna de Honra – o Tricolor havia empatado com o Bangu em 1 a 1 na primeira partida da decisão, para depois vencer o Flamengo por 1 a 0 com o famoso gol de Assis no último minuto. Ressalte-se que, naquele tempo, a vitória ainda valia dois pontos em uma competição profissional no Brasil.

A antológica goleada do Bangu em cima do Flamengo foi vista por muito pouca gente no Maracanã: apenas 5.009 pagantes encararam a tempestade carioca no feriado da Independência para ver o jogo no estádio. Os flamenguistas saíram de cabeça quente, já os banguenses celebraram uma vitória eterna. Júnior, craque rubro-negro e substituto de Zico como armador do Flamengo naquele momento, já disse que, se pudesse apagar de vez uma partida em sua carreira, seria esta. E a ironia do destino escreveu suas linhas de forma magistral: muitos anos depois, o execrado Abelha faria sucesso como treinador de goleiros do japonês Kashima Antlers, ao lado do treinador… Zico.

Uma coisa é certa: digam o que disserem, em 7 de setembro de 1983, o baixinho Arturzinho fez chover com seu futebol gigantesco. Era feriado da Independência do Brasil, mas o dia foi do Rei Artur.

@pauloandel

O vazio do futebol

Enfim, o futebol voltou. Não havia outro jeito, os contratos exigem e, segundo dizem, o show tem que continuar.

Mas há um vazio absoluto, provocado pela trágica pandemia que continua matando muito no Brasil. Sim, afinal é impossível que se tenha público nas partidas. Paciência.

De toda forma, é impossível não se sensibilizar com a desgraça que é uma arquibancada no completamente vazia numa partida de futebol. Sem a torcida, a televisão oferece um sentimento de solidão, de ausência, de lacuna evidente.

O cenário já é triste para os times da elite do futebol brasileiro. Imagine quem não está nela? Campeonatos que não vão se realizar, times que podem desaparecer, tristeza, desemprego, miséria. Quatro quintos ou mais dos jogadores brasileiros ganham pouco mais do que um salário mínimo, isso para quem recebe. E como vai ser daqui por diante?

É certo que prever a catástrofe provocada pela Covid19 era impossível mas, se pensarmos bem, o cotidiano dos jogos sem público na arquibancada já se desenhava de alguma forma, ora pela gentrificação dos estádios transformados em arenas, ora pelo desprezo às equipes que não figuram nas principais competições nacionais, ora pela própria espanholização do futebol através das cotas de TV, ora pelo combate hipócrita aos verdadeiros agentes da violência entre torcidas. Numa reflexão sincera, a TV sempre pretendeu fazer do futebol uma atração como um jornal diário ou uma novela, pouco se importando sobre a necessidade vital de formar público presente aos jogos.

Copiamos a péssima fórmula de Havelange: arenas gourmetizadas, com ingressos caros, privilegiando carros em vez dos velhos trens enchendo os estádios com seus tipos populares.

A pandemia foi apenas (mais) uma pá de cal nos degraus de concreto que antes ofereciam emoção, mas que passaram a exalar “experiências”. Por enquanto temos a justificativa para o deserto de espectadores. Mas o que será do futuro? A torcida vai sobreviver depois que a tragédia do novo Coronavírus for debelada?

Dia 16 de julho de 1950

Há exatos 70 anos e alguns minutos, o Rio vivenciava o maior velório de sua história. Muitos cariocas cometeram suicídio, inclusive no Maracanã, palco de Brasil 1 x 2 Uruguai. É um assunto tido como tabu.

Destroçados para sempre, salvo raras exceções, os jogadores brasileiros experimentaram a morte em vida. Alguns sofreram muito, outros até o fim de suas trajetórias.

O peso mais cruel coube a Barbosa, um dos grandes goleiros da história do futebol brasileiro, num exemplo típico de casuísmo presente no cotidiano brasileiro.

Incrivelmente, os uruguaios campeões não escaparam de destinos cruéis: abandonados à própria sorte pelos dirigentes, que se mandaram antes da decisão, comemoraram o título fazendo uma vaquinha para comprar sanduíches no hotel. Obdulio Varela, o líder do time, foi andando pelos bares do Flamengo e Zona Sul, bebeu como nunca, abraçou brasileiros chorosos e se penitenciou para sempre: ignorou holofotes, afastou-se do futebol e teve um resto de vida miserável, assim como vários de seus companheiros.

E foi da dolorosa derrota em 1950 que nasceu a maior potência da história do futebol. Dos exageros daquela tarde vieram as sementes que, vinte anos depois, floresceram na conquista da Taça Jules Rimet, depois de três títulos mundiais.

Há setenta anos, nasceu uma ferida que jamais cicatrizou – e é irônico que dela tenha vindo um caminho para monumentais vitórias.

Enquanto a Seleção de 1950 não tiver a devida reabilitação e reconhecimento, haverá uma lacuna, um hiato indevido.

A memória de Moacir Barbosa merece isso. As vidas que foram desperdiçadas naquele 16 de julho de 1950, porque inventaram que era matar ou morrer, merecem isso. Não é preciso uma Copa do Mundo para saber reconhecer os próprios heróis.

Aquele silêncio do Maracanã abarrotado ainda rasga o ventre dos que amam o futebol, mesmo os que sequer eram nascidos quando tudo aconteceu.

@pauloandel

Fora de campo – o futebol como ele é (da Redação)

O futebol tinha tudo para ser um dos maiores meios de inclusão social mas infelizmente encontra-se o oposto dessa possibilidade por ser um dos meios mais vil e excludente mas paradoxalmente continua apaixonante e cada vez mais com adeptos e seguidores (torcedores) pelo mundo.

O documentário “Fora de Campo” produzido pelo SESCTV mostra essa crua realidade, onde a paixão e sonho de ser jogador de futebol é usada para alimentar o grande negócio que o futebol tornou-se. Um filme de Adirley Queiroz e Tiago Mendonça.

Ambientado na segunda divisão do Distrito Federal, o documentário trata do proletariado do futebol, enfocando um jogador em atividade, Maninho, personagem mais forte e complexo, mas também outros já aposentados. Um deles fez carreira na Grécia, outro foi ídolo do Vila Nova, há os que vagaram, clube em clube, raros com alguma expressão. Não estão em jogo os gols, os lances ou a mitologia dos boleiros. Está em campo, exatamente, o trabalho. Não sem sonhos. Não sem memórias. Não sem orgulho de conquistas e lutas que, talvez pequenas para nós, são a fonte da vida para eles. A utilização do título é cinematográfica e futebolística. O fora de campo no cinema é um conceito que extrapola a noção de fora de quadro (ainda parte do campo), pois, para além de se relacionar com o não-visível, leva em conta aspectos da ordem do mundo extra fílmico. No futebol, seria quem está de fora, não apenas das quatro linhas, mas da imagem do futebol.

Sarriá no JB, 35 anos depois (da Redação)

Daqui a menos de um mês, completam-se 35 anos da fatídica derrota da Seleção Brasileira para a Itália na Copa do Mundo da Espanha, que alijou um dos maiores times da nossa história de um título mundial.

O tempo deu o devido valor àquele time; no entanto, aqui trazemos o calor das análises e crônicas daquele momento, publicadas no maior jornal do País.

 

 

Jobson e a derrocada anunciada (da Redação)

Dias depois de ter se envolvido em um novo acidente de trânsito com o óbito de seu cunhado, Jobson volta à prisão.

CLIQUE AQUI

É o triste fim de uma das carreiras mais promissoras do futebol brasileiro, impulsionada há oito anos. Na verdade, esse fim já tinha acontecido antes.

E a repetição de um velho problema nosso: uma quantidade expressiva de jovens que possuem enorme qualidade técnica, mas advindos de situação de extrema carência e, num súbito, transformados em ídolos, formadores de opinião, com salários astronômicos na conta e sem o menor preparo para administrar a nova vida, até que a carreira desaba (às vezes literalmente) e, com ela, a própria vida do jogador.

Esta postagem é relativa a uma notícia divulgada hoje, dia 06 de junho, mas se não fosse a data poderíamos localizá-la em décadas e décadas de futebol brasileiro. Jogadores vencidos pelo alcoolismo, pela perda da fama, por diversos problemas extracampo, crimes até. Aqui a situação é a de Jobson, também envolvido com crimes, mas poderíamos falar mais atrás de Garrincha. Ou de Pompéia, o Constellation. Ou de Perivaldo. Ou de uma lista gigantesca de nomes promissores e consagrados. Bruno é outro no sistema carcerário, por exemplo.

O que dizer daqueles que permaneceram no anonimato e, depois do futebol, ainda jovens, ficaram completamente sem rumo? Em dados de 2016, 80% dos jogadores de futebol no Brasil ganhavam até mil reais por mês. A fortuna é uma ilusão para muito poucos jogadores de futebol.

CLIQUE AQUI

Jobson ainda tinha muito a fazer. A cabeça não ajudou. Há quem diga que isso é problema de cada um, mas a verdade é que no futebol brasileiro o jogador ainda é tratado como gado. Os clubes têm – ou deveriam ter – a obrigação de formar não apenas atletas, mas homens – uma vez que nas próprias divisões de base, já se sabe que nem todos terão êxito profissional.

CLIQUE AQUI

Imagem: Bruno de Lima

Mais uma morte no futebol (por Paulo-Roberto Andel)

IMG_20170212_225319_630

Tiros à queima-roupa, gritos, dor, morte. Oito baleados na torcida do Botafogo, um morto, outro em estado gravíssimo até o fechamento desta edição.

Em condições normais de razoabilidade, o clássico entre Botafogo e Flamengo jamais teria sido realizado neste domingo no Engenhão. Mas, pensando bem, condições normais de razoabilidade são algo bastante raro no Brasil de hoje, em qualquer temática.

A banalização da violência acabou endurecendo os corações. As pessoas olham com indiferença, passam e a vida segue. Quarta-feira tem outro jogo, eu não tenho nada com isso, não fui eu quem inventou a violência. E assim, um clássico para colocar 40 mil pessoas põe a metade disso.

Uma parte dos torcedores simplesmente desistiu. O cardápio de sandices que cercam a ida a um jogo de futebol não é para qualquer estômago. Alguns ficam nos bares, outros vendo o jogo na TV em casa e outros passaram a ignorar o esporte – as pesquisas apontam a gravidade deste último fato, aumentando a cada nova medição.

Em dois finais de semana seguidos, o Rio testemunhou dois atos de selvageria contra pessoas que cometiam o crime de acompanhar seus times de futebol. Não é coisa propriamente de hoje: nos anos 1970, era comum alguém ser morto na geral do Maracanã por “assalto” (sempre repercutiu a desconfiança de que alguns mortos eram militantes de esquerda, acompanhando o jogo no setor mais popular do estádio). Tal como hoje, ninguém ligava. E aqui se fala do Rio, mas podia ser em São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia ou outra cidade qualquer.

A TV foi a primeira a bancar a realização da partida. Seu compromisso é com os números da audiência e do caixa. Não vai ter ninguém na rua protestando contra a violência no futebol, nem com boneco gigante de presidiário, nem com camisa da CBF – e aqui, usar a palavra que designa um apenado pode parecer até deselegância.

A Federação? Depois ela publica uma nota de repúdio.

Morreu mais um.

E daí? O carnaval está chegando.

Uhu!

@pauloandel

IMG_20170210_135240_023

Os geraldinos em ação! (por Paulo-Roberto Andel)

Algumas imagens  do maravilhoso documentário brasileiro de Pedro Asbeg e Renato Martins, “Geraldinos” (2015), que conta a história da Geral do Maracanã, carinhosamente conhecida como “o espaço mais democrático do futebol carioca”, extinta em 2005.

SINOPSE

“Construído em 1950 para a primeira Copa no Brasil, o Maracanã foi, por 60 anos, o espaço mítico do futebol-arte. Nesse território, a “Geral” era o lugar destinado ao povão. Não havia como jogadores e técnicos deixarem de ouvir as críticas e até xingamentos dos torcedores apaixonados, figuras não raro folclóricas que ficavam bem perto do campo. Dedicado à memória destes torcedores, o filme analisa as mudanças na reforma do estádio, em 2010, que decretaram não só o fim da concepção de um espaço para todos, mas a instalação de um modelo mais elitista de espetáculo e de cidade”.

GERALDINOS 1

GERALDINOS 2

GERALDINOS 3

GERALDINOS 4

GERALDINOS 5

GERALDINOS 6

GERALDINOS 7

GERALDINOS 8

GERALDINOS 9

GERALDINOS 11

GERALDINOS 12

GERALDINOS 13

GERALDINOS 14

GERALDINOS 15

GERALDINOS 16

GERALDINOS 17

GERALDINOS 18

GERALDINOS 19

GERALDINOS 20

GERALDINOS 22 COLORIDO

GERALDINOS 23 COLORIDO

VEJA AQUI TAMBÉM!

@pauloandel

Quando a Copinha economizava (da Redação)

valdir-vasco-sp-juniores-1992

Em 1992, o time do Vasco da Gama estava prestes a estrear na Copa São Paulo de juniores, a popular Copinha, diante da Portuguesa de Desportos.

A grande curiosidade, se pensarmos nos tempos atuais, tem a ver com o número de participantes. Naquela ocasião, por medida de economia, a Copinha teve 24 clubes disputando a competição, em vez dos 40 do ano anterior.

O mesmo Vasco acabaria campeão na decisão diante do São Paulo, vencendo nos pênaltis por 5 a 3, depois de empatar no tempo normal por 1 a 1. O artilheiro da Copinha seria Valdir, jovem atacante que depois marcaria seu nome no rol de artilheiros vascaínos.

A parte triste estava, para variar, na violência. Três dias antes da final, foi disputada a partida das semifinais entre São Paulo e Corinthians, no Estádio Nicolau Alayon.

Como o Estádio do Pacaembu estava indisponível, devido ao material usado em um show no fim de semana anterior, o clássico estava marcado para a Rua Javari, mas optou-se por transferi-lo para o Nicolau, para permitir uma presença maior de público.

O clima de guerra entre as torcidas provocou ataques com bombas e rojões, proibidos dentro do estádio. Os torcedores infiltravam-se por trás das arquibancadas, para jogar bombas sobre os adversários, por cima do muro. Uma delas, provavelmente atirada por torcedores do São Paulo, atingiu Rodrigo de Gásperi, um torcedor corintiano de treze anos.

Houve pânico entre boa parte dos doze mil torcedores e o jogo ficou interrompido por 25 minutos, mas acabaria retomado até o fim da prorrogação.

Rodrigo morreria quatro dias depois, no hospital, vítima de lesões cerebrais

Nesta edição recém-iniciada, a Copinha conta com 120 equipes na disputa.

taca-sao-paulo-de-juniores-1992

Marcelo, um goleiro (da Redação)

atuacao-marcelo-iii

Quinta-feira, 27 de agosto de 1964.

Não era uma época das mais fáceis no Brasil, mas o futebol era uma espécie de alívio para a vida sofrida de milhões de torcedores.

O Maracanã, palco maior do futebol mundial, recebia Flamengo e Vasco para o eterno clássico, por ocasião da décima rodada do campeonato carioca de futebol daquele ano.

Horário tradicional das 21 horas e 15 minutos.

Uma data marcante para Marcelo, o então goleiro da equipe vascaína, jovem de 24 anos que prometia fechar o gol da Colina, já com a bagagem de ter jogado pelos times  do Yuracan de Itajubá, São Paulo, Palmeiras, Ferroviário de Botucatu e Bonsucesso.

O resultado da partida teve efeito completamente oposto.

O goleiro acabou levando dois gols da intermediária, um deles num lance que parecia muito fácil, marcados por dois craques do Flamengo: os meio-campistas Carlinhos e Nelsinho.

No caminho do vestiário, Marcelo decidiu que nunca mais vestiria a camisa do Vasco da Gama ou de qualquer outro time. A partida se encerrou com o placar de 2 a 1 para o Rubro-Negro.

Ao final do primeiro tempo, o goleiro já havia se desentendido com o treinador Eli do Amparo, que o havia acusado de falhar no gol do empate do Flamengo, feito por Carlinhos. Os dois precisaram ser contidos pelos companheiros para não brigarem no vestiário.

Mas quem disse que só Marcelo sofria em campo? O próprio árbitro da partida chegou a desistir de arbitrar, alegando falta de condições emocionais (vide matéria abaixo), com a partida sendo paralisada e retomada.

Após o segundo gol, marcado por Nelsinho, craque da Gávea, quase do meio de campo no primeiro minuto do segundo tempo, Marcelo alegou não ter mais condições emocionais de prosseguir jogando. Depois de mais de 15 minutos de paralisação do jogo, com atletas dos dois times pedindo para que reconsiderasse a decisão, Marcelo se manteve irredutível.

O goleiro deixou o gramado aplaudido de pé por mais de 90 mil pessoas. Após esta partida, encerrou a carreira.

Em depoimento ao canal ESPN, disse Marcelo:

“Eu bati o tiro de meta a bola atravessou, o Célio deu uma cabeçada, o Nelsinho matou no peito, veio andando e chutou de longe. Eu fui abaixar pra pegar, a bola bateu no chão, bateu no meu braço e entrou. Ela nem chegou ao fundo da rede. Entrei no vestiário e quem estava me esperando era o goleiro Barbosa. Ela me disse: ‘garoto, levante a cabeça porque o que aconteceu comigo foi pior do que o aconteceu contigo’”.

À época gerou inúmeras crônicas publicadas por jornais e revistas, uma delas escrita por Dom Marcos Barbosa (monge e cronista que se tornaria imortal da Academia Brasileira de Letras em 1980), intitulada “Uma Rosa do Povo”, onde fazia uma comparação entre o goleiro e o senador americano Bob Kennedy, bastante aplaudido em um encontro nos EUA durante a campanha presidencial. Marcelo emoldurou esta crônica

No ano de 1970, ao se formar em Engenharia, Marcelo convidou Barbosa pessoalmente para prestigiar a entrega do diploma. O encontro acabou gerando inspiração ao imortal, que tempos depois escreveu outra crônica batizada como “Uma Crônica no Quadro”.

Depois do futebol, Marcelo aposentou-se como engenheiro, tendo trabalhado por 25 anos na IBM.

O Fluminense foi o campeão carioca de 1964.

flamengo-vasco-1964-1

flamengo-vasco-1964-2

marcelo-brito-e-paulinho-de-almeida

vasco-1963

marcelo-goleiro-do-vasco-1964