O próximo jogo

São pouco mais de oito horas da manhã, num silêncio enorme abraçado à luz ensolarada da Cruz Vermelha. Estamos no último domingo de agosto. Por alguma razão o futebol cutuca meu ombro antes que eu levante para lavar o rosto, então volto no tempo e desembarco num outro domingo qualquer de agosto, podendo ser em 1979, 1980 ou 1981.

Era batata: uma rotina maravilhosa. Logo ao acordar, lá estava o rádio ligado no programa do Waldir Vieira – a vinheta tinha o assobio clássico da Rádio Globo – até que, em algum momento, anunciavam a cobertura da rodada do futebol a partir de meio-dia. E aí eu descia para fazer as compras matinais, sonhando em ir ao jogo no Maracanã, especialmente do meu Fluminense – se não desse, seria bom ir a outro também, quando o Flu jogava longe ou fora da cidade. Pão, ovos, queijo, presunto, Jornal dos Sports, O Globo, O Dia, Jornal do Brasil.

Terminado o Waldir, meu pai ligava a TV no Conversa de Arquibancada na Bandeirantes (hoje Band), o programa onde representantes das torcidas organizadas dos clubes cariocas debatiam o futebol. Era um barato. Personagens como Niltinho (Flamengo), Russão (Botafogo), Amâncio Cezar (Vasco, que viria a ser um de meus melhores professores na UERJ) e Antonio Gonzalez (do Fluminense, meu ídolo e que se tornaria meu grande amigo no futuro), comandados por Hamilton Bastos e posteriormente por Dênis Miranda. E depois de uma hora ouvindo os torcedores falarem do Maracanã e do futebol, eu só queria era ouvir a senha mágica, ir para o estádio e ver aquele mar de gente se espremendo com radinhos de pilha nos ouvido, uma experiência sensorial indescritível.

Mas que senha mágica? “Paulo, vá lá embaixo comprar lasanha na Trattoria Torna (da rua Anita Garibaldi)”. Não falhava nunca. Acho que o ritual do Maracanã para meu pai exigia a lasanha de domingo. Comprado o almoço e feita a deliciosa refeição, era só esperar o ônibus na porta do Shopping dos Antiquários em Copacabana e partir para a glória. Saíamos bem cedo, perto de uma da tarde, e geralmente chegávamos com os portões do Maracanã ainda fechados, o que aumentava ainda mais o clima do jogo.

Para nós, o 435 era bem mais rápido e ainda passava na porta do Fluminense, o que era sempre um bom presságio, mas meu pai geralmente pegava o 434, linha Grajaú-Leblon, eleito o ônibus de percurso mais charmoso do Rio, atravessando toda a zona sul, o centro da cidade, passando pelo Maracanã e depois por Vila Isabel. Desconfio de que ele gostasse do percurso e também quisesse me colocar para saborear a cidade. Uma hora depois, estávamos no Maraca. Tinha vendedores de laranjas – a descascada era mais cara -, de almofadinhas para assento – em dias de calor a arquibancada era quente! – de bandeirinhas de mão, de cachorro quente e, acreditem, o estádio dono do mundo tinha bancos de praça em suas cercanias. Em pouco tempo, o vazio era tomado por um mundaréu de gente.

A experiência de subir a rampa do Bellini ou da UERJ de mãos dadas com o pai era algo indescritível. E ainda passar pelas salas das torcidas, com a festa sendo preparada. O lance final era embarcar nos estreitíssimos e escuros túneis que davam acesso à arquibancada, como se você fosse teletransportado para outra dimensão, até que vinha a luz e qualquer garoto ia à Lua ao se deparar com aquele campo gigantesco, aquele monte de gente cantando, a preliminar rolando – ou prestes a acontecer -, os vendedores de Coca-Cola vestido feito astronautas, todos de branco, com capacete e o tanque de refresco nas costas como se fosse um respirador.

Às quinze para as cinco terminava o jogo dos juvenis. As torcidas começavam a arrumar suas bandeiras para desfilar na arquibancada. Papel picado, papel higiênico, pó de arroz, fumaça. Quando começava a ter algum burburinho na entrada dos vestiários, um de cada lado, subterrâneos, aí as torcidas explodiam de alegria. E quem torcia para o Fluminense sonhava com Edinho, Zezé, Deley, Mário, Pintinho, Gilberto, mas por tabela via Mendonça, Helinho, Marcelo, Carpeggiani, Adílio, Zico, Júnior, Roberto Dinamite, Paulo Cezar Caju, Orlando Lelé, Marco Antônio, Edu, Luisinho Tombo, Alex, Mirandinha, Moisés e Luizão lutando contra Wendell, Renato, Raul, Cantarele, Mazzaropi, Zé Carlos, Tobias, País, Ernani.

Às sete da noite, o jogo acabava. Ganhando, perdendo ou tendo apenas assistido, lá estava meu pai e sua mão a me puxar, enquanto eu já pensava na resenha da TVE, na reprise do jogo à meia-noite de domingo, ao próximo jogo que teria que ser pelo apaixonante radinho de pilha e também pelo próximo no Maracanã. O próximo, o próximo, o próximo jogo, numa sucessão infinita que talvez atravesse a morte, honrando as palavras do mestre Nelson Rodrigues.

Agora são nove da manhã do último domingo de agosto. Não estamos mais em 1979 ou 1980, mas em 2020. O rádio está desligado. A banca não vende mais jornais. A senha do pai emudeceu e o clássico do Maracanã foi ontem, com a bela vitória do Fluminense sobre o Vasco. Não há como ir ao jogo logo mais, seja de que time for, e o jeito é navegar pela televisão. E o próprio estádio é totalmente diferente do que já foi um dia. Mas quem disse que aquele desejo infinito de pegar o 434 em Copacabana e passear pela cidade por uma hora até chegar ao Maracanã passou? Não passa, não passará.

Quem subiu as rampas do Bellini ou da UERJ, mergulhou no micro túnel da arquibancada ou desfilou pela grande volta olímpica da geral, nunca mais deixou de voltar. É uma busca infinita pelo futebol, pela paixão, pelo Rio de Janeiro, feito a dos garimpeiros que não largam seu ofício à procura de uma pepita de ouro, aquela que explica a nossa paixão pelo jogo de bola. É o Maracanã, amigos. Que venha o próximo jogo!

@pauloandel

Brianezi 1981/1982

O que me lembro mesmo era em 1981. Havia uma loja de brinquedos na Rua Santa Clara, quase chegando na Avenida Copacabana. Chamava-se Dom Pixote. Pronto.

As caixinhas azuis traziam times incríveis, numerados – um sonho à época -, modernos. Os escudos eram bem grandes e visíveis. E vinha uma linda palheta multicolorida, bela, psicodélica.

Naquele tempo usávamos o Estrelão para jogar. E dadinho também. As bolinhas de feltro ficavam guardadas como troféus.

A onda se espalhou pelas ruas. Siqueira Campos, Figueiredo Magalhães, Barata Ribeiro. O coração de Copacabana ficou louco por vários garotos querendo os botões Brianezi, misturando-os com os galalites ou mesmo substituindo-os. Os garotos juntavam a mesada para comprar os times completos. Noutras vezes rachavam a caixinha: quem ficasse com o 9 e o 10 abria mão do goleiro. Palheta de um lado, bolinhas de feltro do outro.

Os campeonatos foram pipocando: debaixo da escada rolante do shopping da Siqueira Campos – ela, escada, não funcionava. Nos corredores dos blocos residenciais. Aos pés da lanchonete do pai do Marcelinho. O Bola tinha uma mesa grande, morava numa cobertura na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro. Paulinho organizava campeonatos na Ladeira dos Tabajaras. Luis Fernando, no Copaville.

Podia ser a foice e o martelo da URSS, a estrela de Davi no botão azul de Israel, o Saint Etienne da França. Eu preferia os times cariocas. A Brianezi era uma força da natureza para muitos garotos de 1981, com todo o amor de um mundo de botões e dadinhos. Futebol pra valer.

Quase quarenta anos depois, o sentimento ainda é o mesmo. As cores, a caixinha. Os garotos de Copacabana. Campeonatos, risos e abraços. Jogávamos nossas vidas e valia a pena. Era o botão, o jogo, a palheta de mil cores incandescentes. A caixinha.

@pauloandel

O melhor time do bairro

Colaboração de Alberto Lazzaroni

Senhores, isso tudo aconteceu no século passado. Eram os idos dos anos 1970. O ano ao certo eu não sei. Mas, querem saber? Isso é o que menos importa. Só sei que, no melhor estilo Gil Gomes “Meninos, eu vi!”

Era o clássico do bairro. Não tinha mais aonde colocar gente no estádio da A.A. XV de Novembro da Vila Carmari. Mavile x Flamengão. Muita rivalidade em campo. O alviverde contra o rubro-negro. E o melhor: o vencedor levaria o trofeu de melhor time do bairro.

Eu estava muito feliz pois meu pai havia me levado para ver o jogo e só de estar ali com ele, era mesmo motivo para muita alegria. Torcíamos pelo Mavile que era realmente um timaço. O craque era ninguém menos que meu primo, o Verinho. Que jogadoraço! Ditava o ritmo no meio de campo. Além dele, havia também na meiúca o cerebral Beto Minhoca e o artilheiro Índio, além dos sempre eficientes Luizinho e Nelson Bacalhau. Estávamos confiantes na vitória.

O jogo começa brigado e o Flamengão, como esperado, vinha com o claro intuito de segurar o ímpeto do alviverde. E, num lance fortuito, abre o placar. Pronto. Não fez mais nada a não ser pressionar a arbitragem para que o jogo acabasse logo. Não deu certo. O Mavile apertava e num bate e rebate, o artilheiro Índio empata entrando literalmente com bola e tudo. Mal o Flamengão dá a saída, o Mavile retoma a bola e entrando pela direita em diagonal, como um raio, Ju vira o jogo.

Explosão da torcida. Vibração total. Não havia tempo para mais nada e o juiz apita o fim do jogo. Tumulto generalizado. Empurra empurra com a equipe do Flamengão, que tanta cera havia feito, querendo agora que a partida continuasse. Nada feito. O juiz irredutível disse que o jogo havia acabado e os atletas do Mavile correram para a mesa à beira do campo para pegar o trofeu. Mas, que trofeu? Ele não estava mais lá.

– Como pode? – todos se perguntavam.

Nisso, veio um grito. Tá aqui, dentro da sede. Venham!

E foi aquele corre-corre para pegar o troféu. Chegando lá, um funcionário do clube, sede do evento, não queria liberá-lo. Disse que haveria uma nova partida. Foi devidamente “convencido” a fazê-lo.

Os jogadores do Mavile então saem pela rua desfilando com orgulho ostentando o trofeu conquistado. Mas não havia acabado. Numa última e desesperada tentativa, vem de lá um diretor do Flamengão e segura o trofeu, puxando-o para si. Puxa daqui, puxa dali, finalmente o diretor solta o desejado objeto e os atletas alviverdes comemoram como se fosse mais um gol.

No entanto, algo inusitado havia acontecido. O trofeu era formado pela escultura de um jogador chutando uma bola. Na disputa por ele, o braço do jogador do trofeu foi arrancado. Silêncio inicial e perplexidade. Nada muito duradouro. Alguém grita: vai sem braço mesmo!

Carnaval fora de época. Lá se foram eles, sambando e cantando em direção à praça São Jorge, mais especificamente ao local de comemoração de todas as vitórias: a padaria do Seu Tomás. Agora, era só esperar a chegada da bateria do Bloco do Caixote e comemorar até o dia clarear. E o amanhã? Responda quem puder.

Futebol no Aterro

Era uma aventura rápida. Sair de Copacabana num ônibus qualquer, saltar no Aterro do Flamengo e procurar duas boas árvores para servirem de traves. O gramado, um tapete de sonhos como se fosse jogar no Maracanã. Basta uma bola e o dinheiro da passagem.

Podia ser com um amigo, um conhecido ou outro menino que estivesse pela redondeza disposto a jogar, nem que fosse um chute a gol revezando os dois batedores. A vantagem do Aterro é que, por ser imenso, ninguém deixa de se divertir com o jogo de futebol, desde os pequerruchos que chutam bolas de plástico do mesmo tamanho deles até os marmanjos, que fazem dos campos de areia uma verdadeira La Bombonera, o mítico campo do Boca Juniors em Buenos Aires.

Golzinho com par de chinelos ou latas ou um objeto qualquer. Dupla de praia em plena grama. Dois trios chutando contra um só goleiro. Dentro ou fora. Pela manhã ou à tarde todos sonham em ser Edinho, Falcão, Cláudio Adão, Careca. Dribles de Adílio, arranques de Júlio César Uri Geller. Quem está no gol pode ser Leão, Carlos, Paulo Sérgio ou Waldir Peres. E se pode sonhar com um mar de gente ao lado, muitas bandeiras, fumaça, fitas de papel higiênico fazendo serpentinas na arquibancada, muito pó de arroz e um lindo placar eletrônico no cheio de lâmpadas onde se lê “SUDERJ informa”.

Os garotos, que nunca mais vão se ver depois da pelada, viveram juntos algumas horas da existência por motivo de futebol. Foram camaradas ou inimigos sem rancor. Correram, suaram, sonharam com a magia que poderá inebriá-los para o resto de suas vidas.

Terminada a peleja, um deles se senta na grama sozinho, pega o único trocado que lhe sobra, chama o sorveteiro e compra um picolé de limão. Refresca-se depois da correria e espia todo o lugar, abraçando com carinho sua bola de futebol emborrachada e humilde. É um Maracanã depois de um jogo do pensamento. Pergunta as horas para um corredor grandão, são quinze para as quatro e ele decide voltar para sua casa: a televisão vai transmitir Grêmio e Flamengo, decisão do Campeonato Brasileiro de 1982. Todos querem ver e torcer para alguém!

Minutos depois, sentado no banco de trás de um ônibus 433 absolutamente vazio, ele olha para a Enseada de Botafogo, vê outros garotos jogando futebol de praia, sonha com um bom almoço depois do banho, fica empolgado em passar pelos túneis que lhe servem de caminho para casa e depois do segundo, já perto, pensa se gostará do futebol daquele mesmo jeito aos trinta ou quarenta anos de idade.

A pessoa é para o que nasce.

A linha do céu de Moça Bonita

Fim de tarde, fim de jogo, os admiráveis maníacos já deixaram o estádio do Bangu, o Fluminense jogou outra vez. É uma sede interminável. O jogo, o jogo, o próximo jogo, o próximo campeonato, a próxima temporada. Assim tem sido para mim e para muitos torcedores que acompanham seus times de futebol pelo mundo afora.

A diferença do Fluminense para todos os outros está no meu coração de criança. Foi dele que tudo veio, que me trouxe até aqui e que me levará para o futuro imprevisível. Meu time é meu grande companheiro da trajetória de vida. Bons e maus passaram, amores também, as pessoas amadas disseram adeus e ficaram guardadas para sempre no coração. O Fluminense não: como nos versos geniais de Caetano, ele é tensão flutuante do Rio. E por quase todo o ano, a cada três dias ele mobiliza sua gente a persegui-lo como pode: de trem, ônibus, bicicleta, pela TV do bar da esquina, pelo fone de ouvido, pelo radinho de pilha da portaria ou da barraquinha de camelô.

A linha do céu de Moça Bonita desenha um fim de dia, mas na verdade é o recomeço do eterno presente em que vivemos. O Fluminense é pensado, sonhado, desejado. Tal como a pessoa amada, ele instiga e pouco importa se está ou não em seus dias de glória, porque torcer não implica em lógica nem casuísmo, não é escolher quando se busca, mas um sonho que só termina com a morte e talvez nem isso.

O Fluminense está na linha do horizonte, com suas cores diferenciadas pela beleza da luz que abraça a Terra esférica. Ele também está no ponto de ônibus abraçando um coração sereno de volta para casa, nos carros que passam e no mistério da noite que se avizinha. A procura incessante que Bob Dylan faz desde que saiu de casa há muitas décadas e, com seu ônibus, atravessa os Estados Unidos com sua “Neverending Tour”, a turnê que nunca termina, pouco importando se os ginásios vão estar apinhados de gente ou com os gatos pingados facilmente identificáveis, porque estão sempre lá e rangem os dentes em qualquer lugar onde as três cores são nome. Perto dos 80 anos, o trovador estadunidense, o maior artista vivo de seu país, rima com o Fluminense.

Lá vai o velho escudo correndo pelo asfalto procurando a beleza das luzinhas no fim da estrada que não chega, abraçado pelo azul do céu que morre e renasce a cada dia, às vezes coberto de gris, noutras límpido e certeiro. Eu também estou lá, mesmo quando não preciso ou sequer consigo fazer a procissão do futebol ao vivo. O meu Fluminense está em todos os lugares, ganhando ou perdendo. Ele está muito acima de covardias, da vaidade dos homens maus, dos deslumbrados ovos que dele se locupletam por algum motivo – todos vão passar, só o Fluminense não passará jamais, como bem disse o maior de todos os escritores tricolor. O que está em jogo é muito acima de tudo: voar em busca do meu time e, a cada três dias, navegar por lindas noites e tarde para encontrá-lo como se fosse o beijo desejado, que não se encerra em si – ele insiste, avança, avança, sempre em busca do infinito.

Em frente à linha do céu de Moça Bonita eu penso no Fluminense. Quando me sinto miserável e abandonado, penso no Fluminense e ele me oferece acalanto. Quando saio depois de uma derrota, me irrito por trinta segundos e então penso em onde será a próxima partida do Fluminense. Meu coração não se apequena, pelo contrário: aí é que ele se agiganta em uma busca que nunca terá fim. Olho para trás, vejo mais de quarenta anos passados, sonho com mais trinta à frente, ou vinte que sejam bons, ou o que vier porque não tenho o controle disso, mas aquela velha emoção de criança ainda queima com toda fúria: é a próxima partida, é o Fluminense, onde estará o Fluminense, oxigênio do meu pensamento, água para a sede que não cessa, a força que nunca seca, a linha do horizonte que me chama e faz sentir minha mão dada à de meu pai, como se aquela linda imagem algo dissesse “Vamos! Hoje é dia de jogo, vamos perseguir o nosso time”. Eis o que nos cabe.

@pauloandel

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Sobre a foto espetacular de Vinicius Viana, também em homenagem ao aniversário de Leonardo Moretti e a todos os tricolores que perseguem o Fluminense por amor, cada um a seu modo, desde muito até o sempre.

Título inspirado em “A linha do céu de Barueri”, publicado em “Do inferno ao céu – a história de um time de guerreiros”, Editora 7Letras, página 127, 2010, e consequentemente em “Nashville Skyline”, Bob Dylan, Columbia Records, 04/04/1969.

Rua Tenente Possolo, 15: Jornal dos Sports (da Redação)

Em 1957, o primeiro jornal de esportes do país estava com tudo, e Mário Filho inaugurava uma espetacular sede na Rua Tenente Possolo, número 15, nas imediações da Cruz Vermelha, Centro do Rio.

O suntuoso prédio, com sua vistosa e elegante fachada cor de rosa, passou a abrigar todos os setores do jornal: administração, publicidade, redação e gráfica. A sede própria foi inaugurada em 21 de outubro daquele ano (nesse dia, o JS não foi publicado). No dia seguinte, saiu normalmente.

Ali, o Jornal dos Sports ficou por décadas, até a longa agonia da empresa, outras mudanças de endereço, do próprio nome e o fim. Na Tenente Possolo, foi registrada diariamente por décadas a época mais brilhante da história do futebol brasileiro.

Hoje, quem passa pela calçada nem pode imaginar quão marcante era a experiência de ver a sede do JS. O endereço de ouro da imprensa esportiva do Brasil virou um estacionamento. O letreiro colorido talvez lembre em alguma coisa o querido placar eletrônico do Maracanã, o primeiro, inaugurado nos anos 1970. E só.

Leia sobre o Jornal dos Sports no depoimento do jornalista Waldemar Costa

Jornal dos Sports na Wikipedia

Fotos: P. R. Andel.

“Confesso que perdi”, livro de Juca Kfouri (da Redação)

 

Testemunha vida de grandes casos da vida brasileira nos últimos 50 anos, passado pelo esporte e a política, o jornalista Juca Kfouri lança seu livro de memórias, “Confesso que perdi”.

Sócrates, CBF, Diretas Já, ditadura militar-empresarial, Corinthians, Revista Placar, Revista Playboy, Máfia da Loteria Esportiva e muito mais.

Uma degustação em PDF pode ser baixada CLICANDO AQUI.

Vamos apoiar o Gavião! (da Redação)

O Gavião Kyikatejê Futebol Clube é um clube profissional de futebol brasileiro.

Tem como característica marcante sua raiz indígena – anteriormente formado totalmente por indígenas, hoje um time misto – e destaque em ser o primeiro time de um povo tradicional a disputar a divisão principal de um estadual, no ano de 2014.

E precisa de apoio para poder disputar a segunda divisão do futebol paraense, visando o acesso.

Confira no link abaixo.

CLIQUE AQUI.

O primeiro placar eletrônico do Maracanã, em 1979 (por Paulo-Roberto Andel)

Em 11/02/1979, Flamengo e America disputavam um clássico no Maracanã pelo Campeonato Carioca. Numa partida em que não foi brilhante, o Rubro-Negro goleou o Diabo por 4 a 0; no entanto, o grande destaque da tarde ficou por conta da estreia do placar eletrônico do Maracanã, o mais moderno do Brasil à época, e que se tornaria um verdadeiro ícone gráfico daqueles anos de ouro do futebol do Rio.

Coube ao ponta-direita Reinaldo “Ratão” (assim apelidado por conta de seu espesso bigode) marcar o primeiro gol do novo placar.

Renato Sá, o demolidor de invencibilidades (por Paulo-Roberto Andel)

Os recordes de invencibilidade no futebol brasileiro pertencem ao Botafogo e ao Flamengo, cada um com 52 partidas.

Em 1978, o Botafogo teve sua série interrompida pelo Grêmio, que o venceu por 3 a 0 no Maracanã com grande exibição de Renato Sá, marcando dois gols.

No ano seguinte, o Flamengo perderia sua invencibilidade ao enfrentar o Botafogo, e quem era o algoz rubro-negro? O mesmo Renato Sá, que marcou o único gol daquela partida. Um demolidor de invencibilidades.

Campo Grande, campeão da Taça de Prata de 1982 (da Redação)

Era tudo muito diferente há 35 anos atrás. As séries A e B do campeonato brasileiro eram interligadas, de modo que dois times tinham acesso direto no mesmo ano, através da disputa por fases. Quem não subia para a Taça de Ouro tinha a chance de vencer a Taça de Prata, e o Campo Grande a conquistou de forma gloriosa. Foi o último título do clube, que hoje luta pela sobrevivência.

Neste 13 de junho o Campo Grande completa exatos 77 anos. Que venham muitos outros pela frente,

Da página Memórias do Futebol Carioca, reproduzimos a publicação abaixo:

Títulos Inesquecíveis – Campo Grande, campeão da Taça de Prata de 1982. Pedido feito por: Igor Lima.

O Campo Grande, pequeno e tradicional clube do Rio de Janeiro, sagrou-se campeão da 3ª edição da Taça de Prata (a 5ª edição do Campeonato Brasileiro da 2ª Divisão) em 1982, o seu maior título conquistado até hoje.

Esta edição teve a participação de 48 equipes de todo o país, que totalizaram 362 gols em 133 jogos, com uma média de 2,72 gols por partida. O torneio concedia 4 vagas aos vencedores da 2ª fase para a série A do mesmo ano (a Taça de Ouro), onde subiram o América-RJ, o Atlético-PR, o Corinthians-SP, e o São Paulo-RS, que por isto mesmo não participaram das fases finais desta competição.

Os 4 cariocas que disputaram o torneio:

• América F.C.
• Volta Redonda F.C.
• Campo Grande A.C.
• Americano F.C. (Olaria A.C., que havia se classificado na Taça de Bronze de 1981, teve que ceder a sua vaga ao time de Campos por ter sido rebaixado no Campeonato Carioca de 1981)

Nesta época, o Campusca vivia uma de suas melhores fases, com os bailes e as piscinas sempre cheias, assim como a arquibancada do estádio Ítalo del Cima. Inaugurado em abril de 1960, o maior patrimônio do Galo da Zona Oeste, como também é chamado, foi construído em um terreno doado pela família Del Cima. A decisão da Taça de Prata, em abril de 1982, contra o CSA de Alagoas, marcou a história do estádio. O time havia perdido o primeiro jogo, em Maceió, por 4 a 3, e vencido o segundo, em casa, por 2 a 1. Assim, houve a necessidade de uma terceira partida, e, por ter a melhor campanha, o Alvinegro voltou a jogar em seus domínios. E desta vez, diante de 16.842 torcedores, não deixou dúvidas de que merecia a faixa de campeão ao golear o rival por 3 a 0 e encerrar a competição com 78% de aproveitamento, obtidos com 11 vitórias, três empates e apenas duas derrotas em 16 jogos. Décio Esteves comandou o time na conquista.

O time-base era formado pelos seguintes jogadores: Ronaldo, Marinho, Pirulito, Mauro e Ramírez; Serginho, Lulinha e Pingo; Tuchê, Luisinho das Arábias e Luís Paulo. O artilheiro da competição foi Luisinho das Arábias, do Campo Grande, com 10 gols. Além disso, vale frisar que o Campo Grande teve o melhor ataque da competição, com 39 gols.

Estatísticas do Campo Grande:

• 16 Jogos
• 11 Vitórias
• 3 Empates
• 2 Derrotas
• 39 Gols Pró
• 13 Gols Sofridos

Campanha:

1ª Fase
24/01, Campo Grande 2×0 Americano (Ítalo del Cima)
28/01, Campo Grande 3×0 Portuguesa (Ítalo del Cima)
31/01, Uberaba 1×1 Campo Grande (João Guido)
03/02, América-MG 0x2 Campo Grande (Independência)
07/02, Campo Grande 3×1 Comercial-MS (Ítalo del Cima)

2ª Fase
17/02, Campo Grande 2×2 Volta Redonda (Ítalo del Cima)
20/02, Atlético-PR 2×1 Campo Grande (Couto Pereira)

Oitavas-de-Final
27/02, Goiás 0x0 Campo Grande (Serra Dourada)
06/03, Campo Grande 4×0 Goiás (Ítalo del Cima)

Quartas-de-Final
14/03, River-PI 2×3 Campo Grande (Albertão)
20/03, Campo Grande 4×0 River-PI (Ítalo del Cima)

Semifinais
28/03, Campo Grande 4×0 Uberaba (Ítalo del Cima)
04/04, Uberaba 0x2 Campo Grande (João Guido)

Finais
11/04, CSA 4×3 Campo Grande (Rei Pelé)
18/04, Campo Grande 2×1 CSA (Ítalo del Cima)
20/04, Campo Grande 3×0 CSA (Ítalo del Cima)

Dados sobre o última partida:

Data: 25/04/1982
Local: Estádio Ítalo Del Cima (Campo Grande AC)
Ãrbitro: Airton Domingos Bernardoni (RS)
Auxiliares: Valdir Luís Louruz (RS) e Sílvio Luís de Oliveira (RS)
Cartões amarelos: Luisinho (CGAC), Américo e Jerônimo (CSA)
Renda: Cr$ 4.858.200,00
Público: 15.567 pagantes

Campo Grande: Ronaldo; Marinho, Pirulito, Mauro e Ramírez; Serginho, Lulinha, Pingo (Aílton); Tuchê, Luisinho e Luís Paulo; Técnico: Décio Esteves

CSA: Joseli; Flávio, Jerônimo, Fernando e Zezinho; Ademir, Zé Carlos (Josenílton), Veiga; Américo (Freitas), Dentinho e Mug; Técnico: Jorge Vasconcellos

Gols: Luisinho aos 30′ e 60′ e Lulinha aos 44′

Mais informações sobre a competição aqui:

http://www.rsssfbrasil.com/tablesae/br1982l2.htm (em inglês)

Foto: Equipe do Campo Grande, campeã da Taça de Prata de 1982.

Acervo: http://anotandofutbol.blogspot.com.br/. Fontes: Globoesporte.com, Wikipédia, http://colunasports.blogspot.com.br/, http://campograndeac.no.comunidades.net/ e http://www.bolanaarea.com/.

@campuscaoficial

Valtencir, uma estrela solitária (por Paulo-Roberto Andel)

Valtencir Pereira Senra, nascido em Juiz de Fora, é o terceiro jogador que mais vezes vestiu a camisa do Botafogo, tendo jogado pelo clube da Estrela Solitária em 453 partidas entre 1967 e 1976, ficando abaixo apenas dos mitológicos Garrincha e Nílton Santos.

Foi bicampeão carioca em 1967 e 1968, além de campeão brasileiro em 1968. Jogou uma vez pela Seleção, numa vitória por 4 a 1 sobre a Argentina em 1968, fazendo um gol.

Originariamente lateral esquerdo, passou para a zaga quando da chegada de Marinho Chagas ao clube, também jogando como lateral direito.

Ao deixar o Botafogo, teve uma breve passagem pelo futebol venezuelano e, a seguir, foi para o Colorado do Paraná (que tempos depois se fundiria com o Pinheiros, dando vida ao Paraná Clube). Lá, infelizmente encontraria a morte precoce, aos 31 anos, em pleno campo: num jogo entre sua equipe, o Colorado, e o Grêmio Maringá, Valtencir dividiu uma bola com o meio-campista Nivaldo, da equipe maringaense, quando foi atingido com uma joelhada involuntária e sofreu uma ruptura na coluna cervical. Socorrido às pressas, não resistiu e morreu antes de chegar ao hospital.

Abalado com a morte do colega de profissão, Nivaldo foi internado em estado de choque na mesma unidade hospitalar. Desesperado, anunciou o fim de sua carreira, mas foi persuadido pelos colegas do Maringá e acabou voltando atrás. O jovem jogador depois teria uma trajetória de sucesso em times do Paraná, com destaque para o Atlético.

Sobre Valtencir.

Sobre Nivaldo.

Nivaldo em 2014

America 6 x 1 Mixto: uma noite rara no Maracanã (por Paulo-Roberto Andel)

Em 22 de novembro de 1979, numa quinta-feira à noite, o America recebia o time do Mixto de Mato Grosso para uma partida pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Embora o tradicional time rubro ainda tivesse uma boa torcida presente à maioria de suas apresentações, esta contou com apenas 1.236 pagantes, num Maracanã deserto.

Depois de um primeiro tempo ruim, o Mecão acabou goleando o adversário (este com um uniforme muito parecido com o do Vasco da Gama) pelo placar de 6 a 1. O grande destaque da partida no segundo tempo foi o ponta-esquerda Silvinho. Era ainda o America de Uchoa, o eterno zagueiro Alex, o volante Merica, o meia Nelson Borges e o centroavante César.

Pela equipe de Mato Grosso, o destaque era o centroavante Bife, o maior artilheiro da história do futebol do Estado, com passagem pelos times do Porto e Belenenses de Portugal, tendo falecido em 2007 aos 57 anos. E também o veloz jogador Gonçalves.

Foi a maior goleada do America na história do Maracanã e também em jogos do time pelo Campeonato Brasileiro. Alijado da disputa nacional em 1987 por conta de sua bárbara exclusão da primeira divisão, não se recuperou até hoje. O Mixto ainda disputaria outros campeonatos brasileiros da primeira divisão até 1985.

Qual a razão do apelido de Bife, que se chamava José Silva Oliveira?

Segundo o historiador Reinaldo Queirós, o apelido do craque deu-se quando ele tinha 12 para 13 anos, já era um bom jogador entre a molecada e sua mãe era vendedora de marmitas para os soldados de um quartel. A entrega era em três viagens numa velha caminhonete de um tio. Bife viajava atrás segurando as marmitas para que a comida não derramasse. Em certo dia, as marmitas estavam muito cheirosas, ele então abriu uma e comeu o bife que ficava em cima do arroz e do feijão. Estava tão bom que comeu 15 bifes. Entrega feita, os soldados, famintos, “sorteados” pela ausência da preciosa mistura, chiaram com o sargento. Na entrega seguinte, o moleque foi detida e confessou. A mãe dele não foi destituída do fornecimento, o garoto continuou fazendo as entregas e nunca mais aprontou, mas ficou com o apelido de Bife.