Futebol no Aterro

Era uma aventura rápida. Sair de Copacabana num ônibus qualquer, saltar no Aterro do Flamengo e procurar duas boas árvores para servirem de traves. O gramado, um tapete de sonhos como se fosse jogar no Maracanã. Basta uma bola e o dinheiro da passagem.

Podia ser com um amigo, um conhecido ou outro menino que estivesse pela redondeza disposto a jogar, nem que fosse um chute a gol revezando os dois batedores. A vantagem do Aterro é que, por ser imenso, ninguém deixa de se divertir com o jogo de futebol, desde os pequerruchos que chutam bolas de plástico do mesmo tamanho deles até os marmanjos, que fazem dos campos de areia uma verdadeira La Bombonera, o mítico campo do Boca Juniors em Buenos Aires.

Golzinho com par de chinelos ou latas ou um objeto qualquer. Dupla de praia em plena grama. Dois trios chutando contra um só goleiro. Dentro ou fora. Pela manhã ou à tarde todos sonham em ser Edinho, Falcão, Cláudio Adão, Careca. Dribles de Adílio, arranques de Júlio César Uri Geller. Quem está no gol pode ser Leão, Carlos, Paulo Sérgio ou Waldir Peres. E se pode sonhar com um mar de gente ao lado, muitas bandeiras, fumaça, fitas de papel higiênico fazendo serpentinas na arquibancada, muito pó de arroz e um lindo placar eletrônico no cheio de lâmpadas onde se lê “SUDERJ informa”.

Os garotos, que nunca mais vão se ver depois da pelada, viveram juntos algumas horas da existência por motivo de futebol. Foram camaradas ou inimigos sem rancor. Correram, suaram, sonharam com a magia que poderá inebriá-los para o resto de suas vidas.

Terminada a peleja, um deles se senta na grama sozinho, pega o único trocado que lhe sobra, chama o sorveteiro e compra um picolé de limão. Refresca-se depois da correria e espia todo o lugar, abraçando com carinho sua bola de futebol emborrachada e humilde. É um Maracanã depois de um jogo do pensamento. Pergunta as horas para um corredor grandão, são quinze para as quatro e ele decide voltar para sua casa: a televisão vai transmitir Grêmio e Flamengo, decisão do Campeonato Brasileiro de 1982. Todos querem ver e torcer para alguém!

Minutos depois, sentado no banco de trás de um ônibus 433 absolutamente vazio, ele olha para a Enseada de Botafogo, vê outros garotos jogando futebol de praia, sonha com um bom almoço depois do banho, fica empolgado em passar pelos túneis que lhe servem de caminho para casa e depois do segundo, já perto, pensa se gostará do futebol daquele mesmo jeito aos trinta ou quarenta anos de idade.

A pessoa é para o que nasce.

Rodada dupla… mesmo! (por Paulo-Roberto Andel)

chape sirli freitas

Nesta quarta-feira, dia 08, a Chapecoense tem um confronto com o Cruzeiro pela Primeira Liga. Até aí, tudo bem; no entanto, o time da Chape também tem um jogo contra seu rival Avaí pelo Campeonato Catarinense. Os dois jogos no mesmo dia.

Inicialmente o confronto contra o Avaí estava marcado para dia 14 deste mês, mas foi adiado. Assim que soube das modificações na tabela, o clube entrou em contato com a Primeira Liga e também com a Federação Catarinense de Futebol para a alteração de uma das datas, sem sucesso nos dois casos.

Está longe de ser a primeira vez que isso acontece no futebol brasileiro.

O mais surreal dos casos aconteceu com o Grêmio em 1994. Segue reprodução do site Cenas Lamentáveis:

“Em 1994, a Federação Gaúcha de Futebol criou um campeonato estadual de pontos corridos, conhecido até hoje como “Gauchão Interminável”. Começou em 5 de março e terminou em 17 de dezembro, com 23 clubes duelando em turno e returno.

A ideia da federação era diminuir o número de clubes na Primeira Divisão Gaúcha. Para isso, o regulamento determinou que nove equipes seriam rebaixadas. As consequências de um campeonato longo foram uma baixa média de público e uma das páginas mais curiosas da história do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Em 11 de dezembro de 1994, uma tórrida tarde de domingo, foram realizadas três partidas no Estádio Olímpico, válidas pelo Gauchão daquele ano. O Grêmio já estava sem chances de título, mas por que precisou jogar três vezes no mesmo dia?

Acontece que esta foi a forma encontrada de “zerar” os jogos do clube no Gauchão, já que o time de Luiz Felipe Scolari estava disputando várias competições: Copa do Brasil, Brasileiro, Supercopa e Conmebol. A temporada do Grêmio teria quase cem partidas em 1994.

Para aguentar os 270 minutos correspondentes das partidas, que iniciariam às 14, 16 e 18 horas, Felipão concentrou 42 jogadores, colocando em campo 34 deles, além de ceder a casamata a Zeca Rodrigues nas duas primeiras partidas, ficando à beira do gramado apenas no confronto final.

A torcida tinha a mesma impressão, tanto que protagonizou um dos menores públicos da história do Olímpico. Havia até promoção de ingressos: cadeiras e social a R$ 3,00. Estudante pagava R$ 1,50. No total, 758 pessoas sentaram no duro concreto do estádio, e apenas 247 eram pagantes. A renda, portanto, seria de irrisórios 690 reais.

Apesar das enormes dificuldades, o aproveitamento do Grêmio foi bom: um empate e duas vitórias. A primeira partida, às 14 horas, com sensação térmica de 48 ºC, foi diante do Aimoré. Juniores e juvenis formaram a equipe tricolor, com uniforme azul celeste. Destaque para o goleiro Murilo, que evitou a derrota ao defender um pênalti aos 34 minutos do segundo tempo.

O calor era tanto que o árbitro interrompeu a partida para hidratação dos atletas. Atualmente, consta até no regulamento de certas competições, mas, em 1994, isso sequer era cogitado, pois os  jogos nunca eram disputados à época em horários de maior incidência de raios solares. A decisão de Willy Tissot arrancou aplausos dos torcedores.

A primeira vitória do Grêmio no dia viria na partida seguinte, disputada às 16 horas. Só que, mesmo com sete titulares, o Grêmio, usando o tradicional uniforme tricolor, só conseguiu vencer o Santa Cruz aos 47 minutos do segundo tempo. O único gol da partida foi marcado pelo atacante Fabinho. Além disso, o zagueiro Agnaldo Liz desperdiçou um pênalti para o Grêmio.

A maratona de futebol no Estádio Olímpico chegaria ao fim com o confronto das 18 horas, diante do Brasil de Pelotas. Émerson, jovem meia, havia entrado no segundo tempo diante do Santa Cruz, e seria titular no jogo final, por isso, precisou ser rápido no vestiário para trocar o uniforme tricolor que estava usando pelo branco.

“Lembro que as palestras pré-jogo foram muito rápidas. O clima também era de descontração, era fim de ano e pouco valiam as partidas. Aquela tarde foi uma experiência única”, recorda Emerson.

O Xavante chegou ao Olímpico às 15 horas, e se deparou com os vestiários todos ocupados. O jeito foi a delegação ir para a providencial sombra do setor das sociais. O tempo livre foi regado a picolés, pagos pelo técnico Ernesto Guedes.

Em campo, sem picolé e com o calor um pouco menos impiedoso, mais uma vitória do Grêmio, pelo placar mínimo. O gol saiu aos 22 minutos do segundo tempo. Jaques, de cabeça, foi o autor do tento. “Foi no improviso. Antes, a gente dava risada, brincava que conseguiria jogar as três partidas, mas não foi fácil. Três jogos, no mesmo estádio, da mesma equipe, no mesmo campeonato. Pelo que eu já vi sobre futebol, não conheço nenhum caso no mundo”, disse o atacante.

Na época em que vitória valia dois pontos, que o Plano Real começava a dura empreitada de remediar a economia nacional, e Felipão ainda era apenas um gaúcho de bigode e pouco conhecido no Brasil, o Grêmio, enfim, conseguiu completar 270 minutos em campo numa mesma tarde. Curiosidade com cara de façanha. Mais uma história que o Olímpico levou consigo, depois que cedeu seus jogos à Arena do Grêmio.

O fato colocou o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense no Guinness Book: foi o primeiro time a disputar três partidas oficiais em um mesmo dia. Jaques, Emerson e Ciro foram os que mais correram pelo tricolor gaúcho: atuaram em duas das três partidas.”

grêmio 1994 tres jogos

Em 1993, sem datas para realização da Recopa (duelo entre vencedores da Libertadores e da Supercopa do ano anterior), a Conmebol e a CBF concordaram que o duelo entre São Paulo e Cruzeiro, marcado para o dia 25 de setembro, poderia valer por duas competições.

Assim, o jogo disputado no Morumbi, reuniu o São Paulo campeão da Libertadores e o Cruzeiro campeão da Supercopa. A partida valia pelo Campeonato Brasileiro, mas o resultado foi considerado também como o jogo de ida da Recopa, após acordo entre as entidades. A partida terminou empatada sem gols.

Na volta, quatro dias depois, no Mineirão, o duelo valeu somente pelo curto torneio internacional. Novo placar de 0 a 0 e decisão nos pênaltis. Melhor para o São Paulo, que venceu por 4 a 2. Então no começo de carreira, Ronaldinho ainda não era Ronaldo Fenômeno e perdeu uma das cobranças, defendida por Zetti.

cruzeiro sp 1993 valber e ronaldinho

Ah, e acabou de acontecer com o Gre-Nal outro dia também pela Primeira Liga.

grenal 2016

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Imagem: sirli freitas/chape