A paixão do torcedor

Colaboração de CH Barros

Os tempos sombrios em que vivemos, repleto de dor e angústia, é suficiente para que fiquemos desanimados, seja no futebol, no cotidiano, nos estudos, enfim: em todas as esferas. No entanto, os times voltaram a campo apesar da pandemia ainda ser vigente e, junto, a nossa paixão.

Torcer é uma coisa muito engraçada. Certas horas, dá vontade de jogar tudo para o alto e deixar de acompanhar seu time do coração, mas, se ele vencer na próxima rodada, a ânsia pelo jogo posterior é gigantesca até ele chegar. O torcedor é atemporal e sonhador, é movido por paixão.

A paixão do torcedor revela-se a cada instante de um jogo. Ela está no roer de uma unha, no palavrão dito quando o jogador erra um passe, na tristeza ao não ver um lance, na risada ao sair o gol. Ela é tão grande que é capaz de se transportar do sofá até o estádio e dar ânimo aos jogadores.

A paixão nos faz simplesmente esquecer de nossos problemas quando estamos assistindo nossos times jogar. Esquecemos, idem, até dos desfalques, de tão interessados que estamos na vitória. Xingamos, gritamos e vibramos, independente de estarmos no estádio ou não. Torcer é isso.

E não pensem que para por aí. A paixão, bem como o amor, é que nos leva a sonhar com dias melhores para os nossos times; ela é que move a pensarmos que nosso time pode virar o jogo, ainda que a partida esteja aos quarenta minutos do segundo tempo com o adversário vencendo por 2 a 0.

Isso é maravilhoso. O fato de estarmos sonhando com algo, de certa forma, faz com que vivamos por um segundo àquela realidade. Quem nunca sonhou com seu time sendo campeão mundial? Ou vencendo a Libertadores? Quando você pensa nisso, acaba vivenciando o momento.

Nos dias atuais, não há nada mais importante do que a fuga da realidade, a qual só nos traz brigas, desavenças e tristeza. A paixão e o futebol, amantes inseparáveis, é que nos dão esta dádiva. Nos fazem sonhar com dias melhores – por mais difícil que seja – e com as glórias do passado.

Resta-nos torcer para que esses sonhados dias venham, e que o nosso futebol seja mais valorizado pelo o que ele representa. Somos um país que respira futebol. Somente ele pode nos fazer vibrar de alegria com um gol mesmo num momento tão difícil e nos trazer uma ansiedade positiva pelo próximo jogo.

Devemos conservá-lo e tratá-lo com carinho, observá-lo além das quatro linhas. Futebol e torcida têm essência. Logo, não podemos deixar que o tal “futebol moderno” tire isso. Vejamos o exemplo do VAR: é algo que tira totalmente a emoção de um gol. Querem tirar até a essência da comemoração!

Não podemos deixar isso acontecer.

Um viva e um brinde ao futebol, à sua essência e a paixão que ele emana a todxs nós.

Saudações.

Foto: Thomaz Farkas

Sabe o que é futebol?

Gosto é gosto, é de cada um, mas queria dizer algumas coisas de quem vem dentro disso há mais de 40 anos.

Se não sabe o que é futebol, recomenda-se silêncio para não falar besteira.

Parando pra pensar: nesse momento em que há uma tragédia mundial, não bastasse todo o mar de problemas e tristezas, o futebol está fazendo muita falta.

O Brasil não é uma república federativa com 100 milhões de TVs Smart. Não. Aqui no Rio mesmo tem pedaços da cidade que sequer têm luz. E gente humilde demais que tem como única distração o jogo de futebol no radinho de pilha, ou a resenha.

Pelada de rua, golzinho, de fora, tudo está proibido. Muitos garotos pobres, longe demais de pais com ótimos salários, às vezes só sabem o que é brincar quando há uma bola, mesmo que esteja esgarçada, com a câmara de ar em carne viva.

Já ouviu falar na geral do Maracanã? Ela foi assassinada há quinze anos, mas por outros cinquenta e cinco era o único lugar desta cidade maravilhosa onde brancos e negros se abraçavam de verdade toda quarta-feira e domingo – e quando tinham que sair na porrada, era de igual pra igual.

Durante muito tempo, num país comprovadamente escravagista (“E daí?”, né), a negritude tinha duas chances de ser respeitada como devido: na música popular ou no gramado de futebol. O racismo esteve e está em todos os lugares, mas o futebol ajudou de vários modos a lutar contra ele.

Quer saber de futebol? Pergunte para alguém que já ama o jogo há muito tempo sobre como tudo começou. Vai dar um livro inteiro.

Se é domingo na arquibancada, sábado no campo da praia ou feriado na grama ao lado do churrasco, não importa. Pode ser na mesa de botão, no game do computador e até no velho Telejogo, o futebol está lá ganhando os corações. E o Pelebol? E os craques no fundo das tampinhas de garrafa?

Os cinquentões de hoje foram crianças vendo e ouvindo Rivellino, Ademir da Guia, Dicá, Edu. Seus pais vibraram com Castilho, Barbosa, Evaristo de Macedo. Os avós sonharam com Domingos da Guia, Fausto, Heleno, Batatais, Lelé. As crianças de agora podem saber de todos eles.

Sabe quem foi Roberto Gomes Pedrosa? Já ouviu falar de Preguinho? E Belford Duarte?

E o Fla-Flu da Lagoa em 1941, hein? E a Taça Salutaris de 1927?

Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. País, Uchoa, Alex, Geraldo e Álvaro. Wendell, Miranda, Tadeu, Edinho e Rubens. Lico, Nunes e Tita. Jorginho, César e Baroninho. Todo de preto, o Borrachinha. De camisa branca, Leão.

Não despreze quem ama futebol. Tem muito mais coisas em jogo do que somente uma partida. Tem crônica, cinema, teatro, romance. Tem beleza até nos finais infelizes – pergunte aos maníacos que andam vendo reprises de derrotas de seus times há 30 anos!

Um garotinho com um cachorro quente na mão, um copo de Coca-Cola na outra, o popô no velho concreto quente e com seus pequeninos olhos espiando Edinho, todo de branco, arrancando da defesa para o ataque até fazer um golaço, comemorar feito um louco e, no final do jogo, lamentar a péssima vitória do Fluminense por 4 a 0 – poderia ter sido melhor. Ao lado, o pai sorri.

“Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval”. – Eduardo Galeano.

@pauloandel

Ivan Lessa: Futebol é ciência

Publicado originalmente na BBC Brasil em 28 de junho de 2006

Acabou-se o que era doce. Ou acabou-se o que era pau puro (vide, ou relembrai, Portugal contra Holanda). Futebol agora pode virar ciência exata. Feito hóquei em patins e bacará.

A afirmação, bem dizendo, a demonstração, foi feita por um cientista, raça que – todos sabem – não respeita nada que é sagrado. Algumas horas antes do apito inicial para a contenda entre as seleções da Inglaterra e do Equador, Kenneth Bray, um teórico dos mistérios da física, atualmente cedendo suas luzes à Universidade de Bath, resolveu dedicar um pouco de seu precioso tempo ao nobre esporte bretão, como ainda o chamam aqueles que nunca viram um jogo da atual seleção inglesa.

Principalmente do jogo em questão, aquele de sábado contra os pobres dos equatorianos. Sejamos, no entanto, docemente científicos e exerçamos uma marcação corpo a corpo sobre o ilustre cientista.

Ken Bray, como é conhecido na intimidade – e mais de uma pessoa já apontou para o fato de que parece nome de lateral direito marcador de ponta esquerda — Ken Bray, dizia eu, tomou de seu computador, ou o do Universidade de Bath, não ficou claro, e utilizando-se de fotografias digitalizadas do “tanque” Wayne Rooney, a grande esperança inglesa, foi armazenando dados para sua implacável equação.

Vocês todos, coitados, já viram ao menos uma fotografia de Wayne Rooney. Sim, eu concordo. É chato. Ele é conhecido nos círculos maldosos como “Shrek”, em vista de sua extraordinária semelhança, só que em branco azedíssimo, com o personagem computadorizado daqueles dois divertidos desenhos eletronicamente animados.

O homem é uma geladeira ambulante.

Ken Bray empregou fotografias digitalizadas a um décimo de segundo durante os 90 minutos regulamentares de um jogo inteiro de futebol que tivesse contado com os esforços de Rooney. Trabalhão aborrecido esse, hein? De posse dessas preciosas fotos todas, o insigne professor (presumo que seja formado) concluiu que o jogador cobre cerca de 7,3 milhas, ou quase 12 quilômetros de distância, em uma partida normal, se normal pode ser qualquer partida que conte com os enérgicos esforços do “Shrek” retangular da redonda.

Pouco mais da metade desses quilômetros são percorridos à velocidade de um corredor profissional de meia distância. O resto como fundista, ou simplesmente caminhada, à beira-mar ou campo, como quiserem. Ken Bray passou em seguida, de calcanhar, à sua exposição (exposição? Que exposição?) tendo declarado à imprensa, como um técnico sagaz ou ponta de lança mentalmente contundido:

– Todos querem saber se Wayne Rooney é o mais perfeito dos jogadores de futebol. Resposta? Possivelmente, sim.

Embora ninguém quisesse saber nada, o físico britânico desandou a tacar equações num quadro negro para provar sua tese. Parecia o tal técnico sagaz. Aquele da Costa Rica.

Deixando afinal de lado o giz, Ken Bray encerrou sua coletiva afirmando que a Inglaterra ganharia do Equador. Isso era fato e fato científico.

Entre os jornalistas, pasmo geral. Pareciam direitinho a defesa da Sérvia e Montenegro no jogo com a Argentina. Ninguém entendeu nada. Sabiam apenas, e assim reportaram, que com a ciência não se discute, assim como não se dá cabeçada em juiz russo incompetente.

E não é que foi tiro e queda? Tiro de David Beckham. Queda do pobrezinho do Equador que merecia coisa – equação que fosse – melhor. Agora é mandar uma equação semelhante para cima de Portugal. Que, na grande tradição holandesa, bem que poderia alijar da peleja, nos primeiros cinco minutos do jogo, o inefável Wayne Rooney.

Fechado por motivo de futebol – Eduardo Galeano

Tradução de Eric Nepomuceno, Sergio Faraco, Ernani Ssó, Marlova Aseff

“Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado por motivo de futebol. Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado 64 jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida.”

O futebol sempre fascinou Eduardo Galeano, que sobre o assunto tem nada menos que um clássico, Futebol ao sol e à sombra. Ao longo da vida, o uruguaio Galeano escreveu e viveu a paixão pelo esporte, infinitamente mais intensa a cada Copa do Mundo, e dessa paixão surgiu o volume que o leitor tem em mãos. Aqui estão reunidos todos os outros textos do autor sobre esse esporte capaz de despertar emoções coletivas, alguns já publicados esparsamente em livros, mas também vários inéditos e verdadeiros achados, como a crônica em que chama Che Guevara de “traidor” por ter trocado o futebol pelo beisebol em Cuba.

Fechado por motivo de futebol propõe um itinerário pela história deste esporte, desde o tempo em que os jogadores recebiam uma vaca (!) por cada gol até a época dos atletas multimilionários. As páginas também falam de Pelé, Maradona, Zidane e outros grandes e pequenos nomes desse universo, que para o autor não é só um esporte, mas muitas vezes um retrato de como caminha a humanidade. Galeano, com suas crônicas que mais parecem poesia, nos dá o melhor de suas grandes paixões: o futebol, a literatura e a história.

À venda: CLIQUE AQUI.

Vamos apoiar o Gavião! (da Redação)

O Gavião Kyikatejê Futebol Clube é um clube profissional de futebol brasileiro.

Tem como característica marcante sua raiz indígena – anteriormente formado totalmente por indígenas, hoje um time misto – e destaque em ser o primeiro time de um povo tradicional a disputar a divisão principal de um estadual, no ano de 2014.

E precisa de apoio para poder disputar a segunda divisão do futebol paraense, visando o acesso.

Confira no link abaixo.

CLIQUE AQUI.

Ói o Trem! (da Redação)

 

Fundado em 01 de janeiro de 1947 pelos ferroviários Bellarmino Paraense de Barros, Benedito Malcher, os irmãos Osmar e Arthur Marinho, Walter e José Banhos, além de outros, o Trem Desportivo Clube é um dos alicerces do futebol do Amapá.

Tendo sua sede situada num dos mais importantes bairros de Macapá, a capital do estado, o Trem Desportivo Clube já foi por duas vezes campeão amapaense. E também tem uma longa história no antigo Copão da Amazônia, tendo sido pentacampeão de 1985 a 1989.

O nome do clube  é uma homenagem ao bairro onde foi fundado, bem como a profissão exercida por seus fundadores, todos eles ferroviários. Este, por sua vez , recebeu o nome no início do século XIX. Naquela época, foram encontrados na Avenida Feliciano Coelho de Carvalho vestígios de alguns trilhos de trem que possivelmente serviram como meio de transporte do material para a construção da cidade.

Sobre o bairro do Trem – CLIQUE AQUI.

Momentos de dificuldade e superação – CLIQUE AQUI.

Ouça o hino do Trem:

O grande legado olímpico (por Paulo-Roberto Andel)

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Definitivamente, a herança maior que os Jogos do Rio 2016 podem deixar para o Brasil não tratam exatamente de equipamentos, recursos e outros bens de consumo, públicos ou não.

Está em algo que parecia perdido no tempo.

A fidalguia.

Houve quem reclamasse – com razão – das torcidas em esportes que não têm os costumes do nosso football, que transformamos em futebol para o muito bem e o muito mal.

Mas a maioria está em paz, reconhecendo que também há valor numa medalha de bronze. Até mesmo sem o desejado pódio. Em práticas desportivas muitas vezes ignoradas pelos clubes e pelo Estado Brasileiro, como não valorizar um sexto ou oitavo lugar? É estar entre os maiores do planeta.

Há um detalhe que ajuda a perceber tudo: reparem, por exemplo, nas emocionadas comemorações dos atletas brasileiros em diversos momentos, bem diferentes do nosso futebol. Quando finalmente fizemos gols nas Olimpíadas, o alívio veio através de chutes, palavrões e ira. Muita ira.

Para alguns, demonstração de garra e vontade. Para outros, a carência de senso esportivo que ainda vitimiza um povo marcado por bruscas transformações sociais, econômicas e afetivas.

E por falar em afeto, o show de luta contra a homofobia, tão visto nestes dias de disputa, é mais uma lição dos Jogos ao nosso esporte mais querido, falado e divulgado, marcado permanentemente por armários de ferro trancados com correntes, contrariando o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.

É claro que ninguém treina anos a fio para perder e que a História é sempre mais destacada pelos vencedores, mas a vida não pode ser apenas o “perdeu, sai” instantâneo que se vê, por exemplo, na quantidade de treinadores demitidos a cada edição do Brasileirão.

Se os Jogos Olímpicos do Rio não foram capazes de transformar a Cidade Maravilhosa numa terra de paz, o que sabíamos ser quase impossível, é inegável que sua presença nos serve como uma verdadeira universidade de respeito a outros valores, ao harmonioso viver entre divergências, à diversidade em todas as instâncias.

Viver o respeito. Entender que o esporte é mais do que um jogo. Que não ser campeão não é vergonha, mas pode ser símbolo de reconhecimento, dependendo do que tenha sido feito – e como.

Eis aí um mar de lições para jogadores, torcedores, profissionais do futebol e seus “abnegados” dirigentes pendurados em vultosos grupos políticos de ocasião.

O espírito olímpico tem muito a ensinar ao país das chuteiras. Basta querer entender.

Olhar as comemorações dos gols da Seleção de Futebol e compará-las com as de Pelé já seria um exercício de franca humildade.

@pauloandel

A Seleção nas Olimpíadas

ROMA, 1960

seleção brasileira 1960 olimpiadas

Elenco:

1 Roberto Branco • 2 Carlos Alberto • 3 China • 4 Chiquinho • 5 Dary • 6 Décio • 7 Edmar • 8 Gérson • 9 Gil • 10 Jonas • 11 Macarrão • 12 Alvaro Jurandis • 13 Maranhão • 14 Nonô • 15 Paulinho Ferreira • 16 Roberto Dias • 17 Rubens • 18 Valdir • 19 Wanderley • Treinador: Vicente Feola

MUNIQUE, 1972

SELEÇÃO BRASILEIRA OLIMPIADAS 1972

Alguns jogadores que fizeram parte do elenco da Seleção Brasileira que disputou os Jogos de 1972: Nielsen, Terezo, Abel Braga, Osmar, Celso, Bolívar, Falcão, Rubens Galaxe, Pedrinho, Washington, Zé Carlos, Manoel, Roberto Dinamite e Dirceu

LOS ANGELES, 1984

SELEÇÃO BRASILEIRA FUTEBOL OLIMPIADAS 1984

seleção brasileira 1984 olimpiadas ELENCO

Raimundo Fagner e o futebol (da Redação)

Em 2012, Raimundo Fagner, um dos grandes artistas da MPB, concedeu entrevista ao site Portal da Copa, recordando duas histórias com o mundo do futebol: amigos, convivências, e lembranças da amizade com jogadores como Zico e o falecido Geraldo.

fagner raimundo futebol

O futebol de Chico Buarque (da Redação)

chico buarque jogando

A ligação de um dos maiores artistas brasileiros com o nosso esporte predileto vem de longe. Chico Buarque sempre enalteceu o futebol em diversas passagens de sua obra.

Torcedor do Fluminense e frequentador do Maracanã, fundou a torcida Jovem Flu ao lado de outros próceres das artes. Até hoje promove grandes campeonatos de pelada em sua casa.

Em 1989, compôs “O futebol”, delicioso resgate dos tempos em que éramos os reis dos gramados, com jogadores inesquecíveis e inigualáveis. Confira.

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané / Mané para Didi/ para Mané para Didi para
Pagão/ para Pelé e Canhoteiro)

Sobre a cultura da desonestidade (por Mauro Jácome)

ecodebate

No último dia 25 de maio, a televisão mostrou a artimanha do técnico do Palmeiras, Cuca, para se comunicar com seu irmão – e assistente – à beira do campo. Cuca estava suspenso e não podia ficar no banco de reservas. Então, foi criado um sistema de comunicação entre o técnico, que estava numa cabine, e Cuquinha que comandava o time. Óbvio, sabiam que isso não era permitido. Óbvio, imaginaram que ninguém perceberia. Óbvio, tentaram tirar partido da situação. Depois de ser denunciado pelo STJD, soltou: “vai ver a gente ganhou o jogo por causa dessa m… que nem funciona”.

É lamentável essa mentalidade. O problema não é o ponto eletrônico ser o responsável pela vitória do Palmeiras. O resultado não está no centro da questão. O que está é o fazer o errado. Tivesse ganhado de dez ou perdido de vinte, o erro seria o mesmo. Qual a necessidade de tentar ludibriar todos os envolvidos no espetáculo? Engraçado que esse mesmo Cuca, recentemente, negou-se a continuar negociando com o Fluminense porque o clube mantinha contatos também com Levir Culpi.

A cada partida de futebol, temos inúmeros exemplos dessa mentalidade, quando os jogadores tentam enganar o árbitro ao se jogar, ao tocar a bola para fora e sinalizar que não o fez, ao fazer caras, bocas e gestos em infrações que todo mundo viu, inclusive o autor. O “roubado é mais gostoso” do goleiro Felipe foi mais um dos milhares de capítulos do livro que narra o perfil do caráter de significativa parcela do mundo do futebol. Eurico Miranda, Rubens Lopes, Ricardo Teixeira, Marco Polo Del Nero, entre muitos outros, reforçam a ideia das atitudes tortas.

Recentemente, foi a vez de Dunga ter sua dignidade questionada por ninguém menos do que Zinedine Zidane. O técnico da Seleção justificou a não convocação do lateral esquerdo do Real Madrid, Marcelo, numa contusão. No entanto, de imediato, o francês rebateu a afirmação chamando Dunga de mentiroso. Aliás, birra é típico do ex-capitão do time campeão da Copa de 94. Movido por sentimentos revanchistas, afasta da amarelinha qualquer um que ouse comentar algo. Rever ações que prejudicam o futebol brasileiro não entra na pauta desse pessoal.

O interessante é que esses atores – jogadores, técnicos, dirigentes – quando se sentem prejudicados, reclamam por justiça, questionam o caráter alheio, alguns enchem os olhos de lágrimas. É a visão de que somente os outros têm que ser honestos. Os problemas estão sempre nos outros. Pior que tudo isso faz escola, basta ver jogos entre os “subs”.

Seguindo a louvável linha da campanha iniciada após o assustador caso de estupro contra a menina no Rio de Janeiro, devemos clamar também, e sem a hipocrisia reinante no futebol, “pelo fim da cultura da desonestidade!”.

@MauroJacome

Imagem: ecodebate

Uma foto perdida no tempo (por Flavio Jacobsen)

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Toda vez que penso no Brasil, o país que poderia ter sido, o país que foi e o que é, me vem à mente a imagem de Juscelino Kubitschek reunido no Brasília Palace Hotel em 1958. Animada comitiva, vinda de um DC3 do Rio, cercava o presidente e ouvia de um rádio transistorizado com antena esticada no último, a final da Copa do Mundo entre Suécia e Brasil.

O presidente bossa nova parece incomodado na foto, de braço em riste como pedisse para pararem a algazarra, enquanto todos de braços erguidos comemoravam um dos gols do timaço de Pelé, Garrincha e companhia. É provável que ruídos de ondas curtas atrapalhassem a transmissão e a atenção do atento e desconfiado – como sói ao bom mineiro – JK.

Há algo perdido naquela foto. A começar pelo autor, até hoje desconhecido. Pode ter sido o tio do cafezinho.

A partir daquele ano o Brasil seria vanguarda diferenciada em diversos campos. No cinema novo, na música bossanovista, na literatura dos concretos paulistas, na arquitetura de Niemeyer, nas artes, teatro de arena e a partir daquele jogo, também nos esportes. Seria campeão de basquete, tênis, boxe e atletismo anos seguidos. Nelson Rodrigues versou que finalmente perdemos naquela tarde em Estocolmo (manhã no Brasil) o malfadado “complexo de vira-latas”.

Aquele país, em que pese a infraestrutura ainda de dar pena, por incrível, era cortado por trens de norte a sul. Gigante exportador de café e predominantemente agrícola, havia ainda muito mais Jecas Tatus que Haroldos de Campos, por óbvio, ao longo do extenso território. No meu delírio, é possível dizer que o Brasil não era nenhum Pelé. Era, vá lá, um Zito. Segurava a bronca lá atrás, e dava conta do recado e suporte ao primeiro mundo, este na linha de frente. Tudo com muita elegância, a bem da verdade. Quem viu Zito jogar, ou como eu apenas ouviu falar, sabe a que me refiro.

Como anos depois viria a observar Tom Zé, de forma extremamente charmosa, em muito pouco tempo o país deixou a condição mais baixa do universo civilizado, o de fornecer matéria prima, para o mais elevado: provedor de cultura. Era o país do futuro. Que coisa.

Penso sempre naquela foto. E junto com a lembrança da imagem vem a pergunta inevitável: onde foi que erramos? Algumas respostas surgem de imediato. Sem a ingenuidade da juventude já sabemos todos que, por exemplo, foi no período JK que o desmonte dos trilhos começou. O transporte por trens talvez seja o elemento mais estratégico da
infraestrutura de um país. Isso pra citar um exemplo, bastante pertinente quando vemos a influência das grandes empreiteiras do cimento no universo político da nação. Perdemos o trem, fomos de busão. Daí o atraso, os senhores nos desculpem.

Depois de alguns anos de confusão generalizada, todos sabemos o que aconteceu. A festa acabou. Veio a ressaca pesada do grande carnaval, em que heróis e vilões se revezaram no meio de uma passarela imaginária, agora emitindo seus rancores via planalto central. Anos de chumbo e tudo o mais.

Há algo mais perdido naquela foto. Um país que é apaixonado pela ficção novelística, a que muitos creditam o advento da televisão, em ledo engano. O brasileiro consumia vorazmente folhetins impressos desde o século 19, e as novelas de rádio paravam o país. “O Direito de Nascer” deu briga de família. Vizinhos se reuniam para ouvir a radionovela, vovó me contava. Livros e enciclopédias eram grandes fontes de renda, vendidas de porta em porta a uma classe média que crescia a olhos vistos, junto com as cidades. O Brasil das ondas de rádio está perdido naquela foto. Depois entregue aos raios catódicos, a paixão folhetinesca apenas continuou.

No hedonismo que se seguiu em décadas seguintes, Pelé se tornou o homem mais conhecido do mundo. Em processo inverso e misterioso, o país a que ele pertence foi sendo esquecido. Isolado por ditadura, quem sabe. Por acabrunhamento ou interesse que não nos ocorre.

Mas malandro é malandro e mané é mané. Olha nós aqui outra vez!

Voltamos no final do século. E dá pra dizer que reentramos muito bem, armados de guitarras elétricas e tambores de maracatu, reforçados por Romário, Ronaldo, Bebeto, Ronaldinho e Rivaldo. Deu pro gasto e ainda sobrou um tanto pra cachaça. Adentramos os aguardados anos 2000 triunfantes. Estamos aí.

Meu delírio termina aqui. Há outro processo turbulento nos ameaçando para o limbo de um período importante da História novamente. É por isso que não consigo deixar de pensar que há algo mais perdido naquela foto. Pode ser no gesto do presidente pedindo calma… calma.

Flavio Jacobsen é escritor e compositor. Autor de Uns Contos no Bolso (Kottrer Editorial, 2015). Artista de rock, canta e toca guitarra na banda Gruvox.

Corrupção no futebol (da Redação)

Em 12 de outubro de 1979, a revista Placar batia de frente com a corrupção no futebol, misturada à política nacional e outras mazelas que, pelo visto, não sofreram maiores modificações nas últimas décadas.

É interessante notar boa dose de perenidade nas canetas certeiras de Juca Kfouri e João Saldanha, tudo dosado com finas ironia e humor.

corrupçao no futebol placar 12 10 1979

 

joao saldanha placar 12 10 1979 4 juca kfouri

joao saldanha placar 12 10 1979 1

joao saldanha placar 12 10 1979 2

 

CINEFOOT 2016 em campo (da Redação)

A sétima edição do CINEFOOT – Festival de Cinema de Futebol – começa nesta quinta-feira no Rio de Janeiro, com atrações especiais e entrada franca, depois passando por Caté, Recife, São Paulo, Belo Horizonte e Vitória.

Uma fantástica oportunidade de testemunhar o encontro de duas artes, o cinema e o futebol, mas por diversas perspectivas de reflexão: a crítica social, a análise das épocas, um mergulho no caminho do esporte que leva a entender sociedades, comportamentos e fatos.

Visite aqui o site do CINEFOOT.

E a programação completa AQUI.

abertura cinefoot 2016

Veja uma chamada de 2015:

E o documentário “Geral”, de Anna Azevedo, 2011.

Os porões do futebol (da Redação)

roberto cabrini

No programa SBT Repórter, apresentado por Roberto Cabrini em 13/06/2013, o perigoso universo do submundo do futebol.

Durante cinco meses, Cabrini investigou homens que se diziam empresários e agentes, mas que, na prática, em nome do lucro, montaram uma verdadeira fábrica de fraudes.

“O verdadeiro torcedor”, uma crônica de Ivan Lessa (por Paulo-Roberto Andel)

ivan lessa foto

O verdadeiro torcedor não se dá a conhecer. Embora um conoisseur, prefere trabalhar – seu ofício é duro – em silêncio. Tem razão. Sua prática é feroz, exige disciplina e nem todos o compreenderiam.

O verdadeiro torcedor não pinta a cara ou qualquer outra parte de seu corpo, não veste a camisa de seleção alguma, não agita bandeiras, não ergue a voz em coro com outros. O verdadeiro torcedor é um animal pensante doméstico. Não vai aos jogos. Principalmente os da Copa do Mundo. Escolhe, no entanto, torneios importantes que propiciem amplo espaço na imprensa, televisão ou mesmo rádio.

O verdadeiro torcedor gasta seu dinheiro em jornais, publicações especializadas, cadernos em espiral e canetas esferográficas. E uma tesoura razoável. No seu quarto, um território proibido a estranhos, tem colado nas paredes tabelas coloridas e algumas fotos e recortes pregados com uma massinha azul que não deixa marca ou mancha. Na mesa de trabalho, ao lado do computador, o caderno de notas, a tesoura (“Recortar é viver”, este seu lema) e uma Bic, de preferência azul.

O verdadeiro torcedor passa entre 2 a 3 horas por dia folheando os jornais em busca de colunas relativas aos diversos jogos. Degusta análises, com ênfase naquelas que ousem previsões. Não são difíceis de encontrar: o peixe morre pela boca, o jornalista esportivo pelo texto. O verdadeiro torcedor passa pelo menos uma hora vendo e ouvindo, com atenção, as observações feitas pelos bem pagos comentaristas profissionais durante os intervalos e as versões compactas dos jogos da Copa. O verdadeiro torcedor ri fácil e, sério, toma notas.

O verdadeiro torcedor é um perfeccionista. O verdadeiro torcedor sabe, como os mais desbragadamente apaixonados, o nome e a ficha completa de jogadores mais populares como Cristiano Ronaldo, Messi, Robinho, Maicon, Eto’o, Casillas, Rooney e Dempsey, como também daqueles menos cotados, como Zigic, Özil, M’bohir, Yussuf e Park-Ji-Sung.

Até mesmo os técnicos não fogem a seus olhos dourados de atenção: Otto Rehhagel, Huh Jung-moo, Gerardo Mantino e Rajevac são magos feiticeiros de sua intimidade. O verdadeiro torcedor desconhece limites para o esporte das multidões em sua modalidade máxima, pois sabe de cor e salteado até mesmo o nome de todos os estádios sul-africanos, dos quais prefere citar, em voz baixa e a sós, como se recitando uma incantação, os de Koftus Versfeld, Peter Mokaba, Mbombela e o de Moses Mabhida.

O verdadeiro torcedor tem, por vezes, seus exageros, pois é humano, nada mais que humano. Saber uma linha do hino nacional da Argélia, sob qualquer ponto de vista, não deixa de ser levar a idiossincrasia a seus mais desvairados limites (É assim: Qassaman Binnazzilat Ilmahigat e quer dizer “Juramos pelo raio que destrói”).

O verdadeiro torcedor freme e goza de prazer é quando encontra, como foi o caso, um comentário-prognóstico de David Hytner, doGuardian, na mesma manhã em que, algumas horas depois, a Alemanha foi perder de 1 a 0 para a Sérvia:

“Joachim Löw revitalizou sua equipe (a alemã, frise-se) com uma abordagem técnica audaz, saudável e multicultural”. E, mais abaixo, “A formação por ele escolhida a dedo abunda com a exuberância e o frescor da juventude”. Assim prosseguiu o notável David Hytner, sem sequer esquecer do trema sobre o “o”de Löw, jabuzelando e vuvulanando por umas três colunas.

A Sérvia? Sob a batuta de Raddy Antic? A Sérvia definitivamente não estava à altura de conter as feras de Löw que, até então, já haviam desembestado ganhando de 4 (de quatro!) da – seria manhosa, David Hytner? – Austrália, orquestrada sob a batuta do – seria capcioso, David Hytner? – Pim Verbeek.

O verdadeiro torcedor, assim como quem não quer nada, quer tudo. O verdadeiro torcedor é pela zebra e o circo pegando fogo fora de campo. O verdadeiro torcedor pouco liga para milionários dando pontapés e estragando gramados.

O negócio do verdadeiro torcedor é ver os outros milionários, os da mídia, quebrando a cara. Momentaneamente, ao menos. O verdadeiro torcedor sabe que os outros torcedores, coitados, logo vão embora e de tudo se esquecer depois de cantarem seus estribilhos, soprarem nisso ou naquilo outro e voltar a esperar outros quatro anos..

O verdadeiro torcedor não carece de matéria. N’est-ce pas, cari amici italiani?

(Publicado originalmente na BBC Brasil em 21 de junho de 2010)

Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos – e um torcedor fanático do Botafogo -, Ivan Lessa fez parte do grupo que colaborou e que, durante muito tempo, fez sucesso no jornal “O Pasquim”. Carioca, filho de Orígines Lessa e Elsie Lessa, escreve valendo-se de um humor cheio de ironias. Auto-asilado na Inglaterra, segundo ele por ter-se desencantado com o Brasil, trabalhava na BBC de Londres. Publicou em praticamente todos os grandes veículos da imprensa brasileira.

Ivan faleceu aos 77 anos, em Londres, onde vivia, em 09/06/2012.

Tiranias do futebol (por Thiago Muniz)

O futebol brasileiro parece imitar as ditaduras: desmandos, censura e às vezes até assassinatos.

O fato de ter sido um dos braços de sustentação da ditadura militar no Brasil – ainda que involuntariamente – contribui para que o futebol continue nutrindo resquícios daquele período?

Um terço dos presidentes de federações de futebol no Brasil está no poder há mais de 20 anos.

A falta de alternância nas posições de comando do esporte interfere diretamente em medidas autoritárias, como a recente “lei da mordaça”, no Rio de Janeiro?

Nos chamados “anos de chumbo”, a tirania jogou duro com atletas e torcedores que se rebelavam pelo futebol. De lá para cá, pouca coisa mudou.

As mãos que tapavam a boca dos jogadores de Flamengo e Fluminense num clássico em 2015, enfileirados no centro do gramado do Maracanã, tinham um alvo em comum. Três meses antes do protesto, a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj) havia decretado a “lei da mordaça”. A entidade emplacou um artigo no regulamento do Campeonato Carioca proibindo atletas, treinadores e dirigentes de criticarem publicamente a competição.

dhavid normando fla flu 2015

Sintonia fina com o “padrão Fifa”, que havia imposto norma semelhante durante a Copa das Confederações em 2013 e na Copa do Mundo de 2014. “Vivemos um retrocesso”, disse à época Rodrigo Collodel, presidente da Frente Nacional dos Torcedores, movimento que cobra a democratização do futebol. “No tempo da ditadura, os estádios abrigavam as reivindicações que as pessoas não podiam fazer nas ruas. Agora estão se tornando ambientes higienizados e controlados por dirigentes.”

Repórter do diário Lance!, Bruno Cassucci sentiu na pele a ferocidade que torcedores habituaram-se a experimentar. Ele foi agredido por policiais militares quando cobria uma briga entre torcedores nas imediações da Vila Belmiro, em Santos, no fim do ano passado. As fotos que ele havia registrado da confusão foram apagadas de seu celular por um oficial. “Um PM (…) pegou uma bomba de efeito moral, puxou minha calça e a colocou dentro”, relatou. Ameaçado pelos policiais durante a abordagem, Cassucci contou que preferiu não fazer o reconhecimento dos agressores por medo de represálias.

bruno cassucci

Segundo relatório da Federação Nacional dos Jornalistas, pelo menos seis casos de violência envolvendo profissionais de comunicação em 2014 foram associados ao futebol. Todos eles seguem impunes ou mal resolvidos. A três dias do penúltimo Natal, o radialista esportivo Iran Machado foi executado com dez tiros na porta de casa em Itabaiana, interior de Sergipe. Apesar da suspeita de que alguma denúncia de Machado no rádio pudesse ter ocasionado o assassinato, e da prisão de Jefferson Chaves, o Bodão, principal acusado dos disparos, a polícia ainda não conseguiu esclarecer a motivação do crime. No mês anterior, o cinegrafista Jeferson Kickhofel registrava imagens de uma discussão na saída do gramado até ser abordado pelo diretor de futebol do Londrina, Alex Brasil. O dirigente tentou pegar a câmera de Kickhofel, que, em seguida, foi acometido por socos e chutes de outros membros da equipe.

Mentor da lei da mordaça, Rubens Lopes completa uma década na presidência da Federação do Rio de Janeiro em 2016. Reeleito por aclamação no ano passado, ele tem mandato até 2018. Seu antecessor, Eduardo Viana, que morreu em 2006, comandou a Ferj por quase duas décadas. No futebol brasileiro, 11 dos 27 presidentes das federações estaduais, que ajudam a eleger o comando da CBF, ocupam o cargo há mais de 20 anos. Quatro deles dão as cartas desde a época em que o país era governado pelo regime militar. Empossado na CBF em cerimônia fechada para a imprensa na manhã desta quinta-feira, Marco Polo Del Nero dirigiu a Federação Paulista por 12 anos. Tome Nabi Abi Chedid, Heleno Nunes e outros.

“A ditadura não inventou a cultura autoritária do Brasil, mas aprofundou-a e a expandiu para além da política. No futebol nacional, há a ‘cultura do mandonismo’. Dirigentes comportam-se como se estivessem administrando um negócio que lhes pertence, como uma fazenda”, afirma Adriano Codato, doutor em ciência política e professor da Universidade Federal do Paraná. Líder do Bom Senso F.C., que articula a inclusão da limitação de mandatos de dirigentes entre as contrapartidas da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte em tramitação no Congresso, Paulo André defende que “a alternância de poder é a pedra fundamental para o desenvolvimento do nosso futebol”.

Cartolas e seus mandatos intermináveis à frente de clubes e federações. Desmandos e monopólio de poder da Confederação Brasileira de Futebol. Censura e repressão nos estádios.

Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre esses dois fenômenos. Os traços autoritários e, mais do que isso, arbitrários e despóticos presentes no futebol, seja na prática de juízes, seja na de dirigentes e técnicos, têm mais a ver com a cultura autoritária do país. Essa cultura a ditadura não inventou, mas a intensificou e expandiu para além da política. No futebol nacional, há a cultura do mandonismo: segundo o raciocínio das torcidas e de parte da crônica esportiva, o capitão deve mandar no time, o técnico no capitão (e, por extensão, em todo o time), o diretor de futebol no técnico e o presidente no diretor. Não é propriamente uma cadeia racional de comando, mas uma estrutura hierárquica, parodiando a estrutura militar (daí as metáforas “capitão”, “comandante”, etc.), que só se justifica em função dos caprichos daquele que pode mais nessa relação perversa. Com isso, quem se engana é a torcida, porque lhe contaram que ela é o patrão máximo do clube.

Esse é um efeito da cultura autoritária e da sua representação política no futebol, o mandão local. Pode ser o chefe de uma facção de torcida organizada, o dirigente sabe-tudo, o presidente do clube ou da Federação. Os dirigentes comportam-se como se estivessem administrando um negócio que lhes pertence, como uma fazenda. Isso ajuda a explicar comportamentos como os do “coronel” Eurico Miranda, do “coronel” Mario Celso Petraglia, do “coronel” Marin.

Manifestações de pessoas vestidas com camisas da seleção e bandeiras do Brasil, que pedem a volta da ditadura, se encaixam nesse contexto? No Brasil, há um fenômeno sintomático e contraditório em curso. Ele pode ser visto nas passeatas que exigem a destituição da presidente eleita em 2014. A contradição mais óbvia é protestar contra a corrupção fantasiado com a camisa da seleção da CBF.

Existe também um fenômeno que não se via desde os anos 1970: a identificação da seleção brasileira, das suas cores, da sua simbologia, com o Brasil. Como se o país se reduzisse a isso ou se essa fosse sua melhor expressão. Esse orgulho nacionalista surge, paradoxalmente, num momento em que não há muito do que se orgulhar em termos futebolísticos. Essa é a segunda contradição.

Por fim, não deixam de ser sintomáticas as manifestações autoritárias contra as regras do jogo e, consequentemente contra a democracia, desde o amaldiçoamento de “comunistas” até a representação da CBF como o máximo de brasilidade possível. A entidade pouco se importa com algo que não tenha a ver com seu lucro, que está longe de semear benefícios diretos aos clubes de futebol no país.

Fonte: Revista Placar, Jornal Lance e Bom Senso FC.

Imagem: Dhavid Normando

O futebol no mundo dos videoclipes (por Paulo-Roberto Andel)

Popularizado a partir de 1981 com a chegada da MTV (Music Television), o videoclipe foi a grande mola propulsora do mercado da música mundial durante décadas, ainda com muita força nos tempos atuais. E algumas bandas famosas do rock e do pop nacional e internacional não deixaram de homenagear o futebol em suas produções artísticas, seja em imagens, versos ou melodias. Confira alguns exemplos.

1) “(Keep feeling) Fascination”, The Human League, 1983:

2) “Perfect strangers”, Deep Purple, 1984:

3) “Tiruliruli”, Hermeto Pascoal, 1984

4) “O futebol”, Chico Buarque, 1989:

5) “Bahia x Grêmio”, Yamandu Costa, 2001:

6) “Futebol no inferno”, Caju e Castanha, 2009:

7) “Umbabarauma”, Jorge Benjor & Racionais MCs, 2010:

CINEFOOT 2016 – onde o futebol é todo cinema (da Redação)

cinefoot 2016

O CINEFOOT, único festival de cinema de futebol do Brasil e pioneiro na América Latina, anuncia a sua relação de convocados para as mostras competitivas da sua sétima edição no Rio de Janeiro. São 23 filmes na disputa pela Taça Cinefoot 2016.

O CINEFOOT será realizado de 19 a 24 de maio no Espaço Itaú de Cinema Praia de Botafogo, Ponto Cine e Cine Joia (Jacarepaguá e Caetés), o mais novo cinema a integrar o circuito.

De 31 de maio a 4 de junho, está programada a já tradicional “Prorrogação Cinefoot“ no CCJF – Centro Cultural Justiça Federal, Cine Teatro Eduardo Coutinho e Cinemaison.

Entrada franca em todas as sessões.

Confira a lista completa dos convocados em www.cinefoot.org

“Jogador, cabeleireiro e homem”, um filme sobre Mauro Shampoo (da Redação)

mauro shampoo

Mauro Shampoo, figura emblemática do não menos emblemático time do Íbis, foi meio-campista, camisa 10 e o maior ídolo do time pernambucano, que defendeu entre as décadas de 1980 e 1990, tendo marcado um gol, em paralelo à sua profissão de cabeleireiro.

Carismático e folclórico, Shampoo é o protagonista desse divertido curta-metragem, de Paulo Henrique Fontenele e Leonardo Cunha Lima.

escudo do íbis

O contraexemplo da formula 1 (por Zeh Augusto Catalano)

Agência O Globo

Domingo à tarde, Vasco e Botafogo, os dois líderes e melhores times do Campeonato Carioca, disputavam, em São Januário,  um jogo que tinha tudo para ser bem interessante – como foi. Mas não para o torcedor. Oito mil testemunhas presenciaram o cotejo. As sociais vazias são mais um alerta de que as coisas vão mal, obrigado, no mundo do futebol. E este não é um fenômeno brasileiro. Há exceções – Inglaterra e Alemanha – mas é muito comum ver campos às moscas mundo afora em praças importantes como Itália e Espanha.

Mais que campos vazios, há um desinteresse crescente pelo esporte na TV também. Domingo, assisti sozinho o jogo no bar de um clube. Durante o segundo tempo, apenas dois cidadãos vieram ver o que passava na televisão. O clube estava cheio. Ninguém deu bola pro jogo.

Até 1994, a Formula 1 era uma das paxões do brasileiro. As pessoas não saíam de casa. Tinham de ver a corrida do Senna. Naquele fatídico primeiro de maio, essa paixão virou tristeza. Mas se engana quem pensa que foi a morte do ídolo que transformou a F1 nesse espetáculo insuportável de hoje. A derrocada começou com um super-carro da Ferrari, que pulverizou os demais, ganhando todas as corridas do ano. Somou-se a isso uma escolha catastrófica de regulamento dos carros, transformando as corridas numa enfadonha procissão. Lembro-me de Galvão Bueno vibrando com trocas de pneus. As únicas ultrapassagens se davam nos boxes.

Em suma, o que a Formula 1 tinha de melhor –  equilíbrio, cracaços no volante -, desapareceu. Em vez de três ou quatro carros brigando por vitória, sete ou oito pilotos, um alemão Dick Vigarista desfilando sua arrogância e passeando sem ameaças.

O equilíbrio e a emoção desapareceram. Com isso, claro, o público despencou. Patrocínios também.

O exemplo está ai. O futebol segue a passos largos o mesmo caminho de desequilíbrio. É a famosa espanholização. Tomara que não seja tarde demais.

O time de Neném Prancha (por João Saldanha)

JOÃO SALDANHA NO MARACANA

Já faz muito tempo, acho que durante a guerra, os jogadores do Posto 4 FC, campeoníssimo da praia, dirigido pelo “Trenier” mais famoso da Costa do Atlântico, Neném Pé de Prancha, tinham resolvido dar uma festa de fim de ano, na garagem da casa de um tio do Renato Estelita. O Lá Vai Bola FC aderiu ao baile e compraram três barris de chope.

Eu não topei e disse na esquina do Café do Baltazar: “Não vou. Na festa do ano passado, na garagem do Pé de Chumbo, quebraram tudo e até hoje o clube não pagou a cristaleira da avó dele que estava guardada lá. Não vou mesmo. Chega de encrenca.”

Meu irmão Aristides, o Hélio Caveira-de-Burro e o Orlando Cuíca me acompanharam na idéia de não ir ao baile e fomos tomar um chope, sossegados, num bar vazio, na esquina da Avenida Atlântica com Rua Cons­tante Ramos. A noite estava boa e o papo também. Mais tarde, passou por ali o Jaime Botina e disse: “Caí fora do baile. Tem gente demais e muito nego bêbado. Vai dar galho.” E eu emendei: “Não disse?”

Lá pelas duas horas da manhã, parou um táxi daqueles grandes e sal­tou o doutor A. Coruja, esfregando os óculos, nervoso. O doutor Coruja era um impetuoso lateral direito. Só dava bico na bola de borracha e Ne­ném Prancha decretou: “Só joga se cortar as unhas. Uma bola está custando cinco pratas.” Seu controle de bola não era dos melhores, mas quebrava o galho na lateral direita. O galho ou o ponta-esquerda adversário.

Mas chegou e foi falando incisivo: “Se vocês são machos e meus ami­gos, têm de ir lá comigo. Fui desacatado mas eram muitos.” E foi logo dando ordens: “Entrem aqui no táxi e vamos lá.”

Lá aonde?” disse o Hélio. Coruja explicou: “E na Rua Joaquim Silva. A mulher me desacatou, ofendeu minha mãe e não pude reagir porque ela estava com três caras na mesa. Vocês têm de ir comigo ou não são meus amigos.” Repetiu isto umas cinco vezes e completou: “Como é, poetas? Vamos ou não vamos? Vocês agora deram para medrar?”

Eu cochichei para o Cuíca: “O Coruja está de porre. Não vou me meter nisto.” O Cuíca respondeu: “Ele vai chatear a gente o ano inteiro por causa disso. O Coruja quando bebe é assim. Fica remoendo os troços. Olha, ele veio de lá até aqui e gastou meia hora. Para voltar, outra meia hora. Os caras já não estão mais lá, a pensão já deve estar fechada e a mulher dormindo com alguém.” E virando-se para o doutor Coruja: “Tá bem, nós vamos, mas vem tomar um chopinho com a gente.” Coruja topou e mandou o português do táxi esperar.

Tomamos o chope bem devagarinho e fomos, ainda devagar, para a Rua Joaquim Silva. O táxi “disse” que não esperava mais e foi embora. Subimos a escada de madeira, comprida e estreitinha, e demos numa sala de uns três metros por quatro, se tanto. Quatro mesinhas, só duas ocupadas por fregueses, e, nas outras, umas três mulheres com cara de sono. O diabo é que numa das mesas estava a tal mulher papeando com os três caras. Doutor Coruja partiu direto e foi dizendo: “Repete agora, sua vaca.”

Os homens levantaram, o que estava mais perto levou um soco do doutor e o pau comeu solto. O lugar era apertado e eu me lembrei da cristaleira da avó do Renato. Um dos caras era uma parada, brigava bem. O garçom não parecia homem mas era e as mulheres fizeram uma gritaria dos diabos. As mesas e as cadeiras foram para o vinagre, um dos caras se man­dou escada abaixo, quando alguém apagou a luz. Escutei a voz de Hélio Caveira-de-Burro, que era muito experiente: “Vamos dar o fora.”

Saímos rápido e ainda levei com uns detritos atirados pelas mulheres da janela. Um guarda apitou e saímos pelas ruas da Lapa. Uns se mandaram pela Conde Laje e outros pela Glória. Eu fui parar no Passeio Público, arrumei um táxi e voltei para o ponto de saída. Quando cheguei, Orlando Cuíca já estava e disse: “O guarda começou a dar tiro e quase me pega. Tive sorte.”

Depois chegaram Hélio e meu irmão, que vieram noutro táxi. Hélio falou: “O grande era uma parada. Mas peguei ele bem com a perna da cadeira. Senão a gente não ganhava.” Meu irmão estava com a camisa ras­gada e disse que foi a mulher que se atracou nele. “Não bati mas tive de dar uma ‘banda’ nela. Juntou pé com cabeça. Depois que Hélio dominou o grandalhão, foi barbada. Dei uma no de terno marrom que ele se mandou pela escada.” E eu disse: “Ficou tudo quebrado e a mulher que o Coruja bateu não levantou, mas eu não vi sangue.”

E ficamos relaxando um pouco quando chegou um táxi e o doutor Coruja saltou esfregando os óculos com um lanho no rosto. Hélio pergun­tou: “Como é doutor, se machucou?” “Nada, um arranhãozinho à toa.” E prosseguiu: “Puxa, agora estou satisfeito. Há mais de três meses que eu estava para ir a esta forra.”

“O quê?” — berramos em coro — “O negócio foi há três meses!?” E Coruja explicou, calmamente: “Foi sim e eu não bati nela porque estava acompanhada.” Então meu irmão perguntou: “Quer dizer que os caras que apanharam não eram os mesmos?” Coruja respondeu: “Claro que não, meus poetas, mas o que tem isto demais?”

Nesta altura, o sol já estava aparecendo lá na Ponta do Boi, iluminan­do o primeiro dia do ano e desejando boas entradas para a excelentíssima senhora mãe do doutor A. Coruja.

JOÃO SALDANHA era gaúcho e nasceu em 1917 na cidade de Alegrete. Jornalista combativo, treinador, apaixonado pelo futebol, conseguiu unir o Brasil — então politicamente dividido — em 1969, por ocasião das eliminatórias para aquela que seria a Copa do tricampeonato no México. De temperamento difícil, extremamente corajoso, fez muitos inimigos na vida. Mas todos admiravam aquele homem (ainda que muitas vezes não o perdoando pelas aventuras que dizia — e acreditava — ter vivido) que assistiu a todas as Copas do Mundo de futebol; que, como jornalista, cobriu a guerra da Coréia; que desembarcou na Normandia com Montgomery e que fez a grande marcha com Mao Tse-Tung. Faleceu no dia 12 de julho de 1990, durante a Copa do Mundo. O texto acima consta do livro “Nelson Rodrigues e João Saldanha – a crônica e o futebol”, compilado por Ivan Candido Proença, – Rio de Janeiro – Educom – 1976, págln96-98, e extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro – 2007 – pág. 206, organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.

SOBRE NENÉM PRANCHA

Antonio Franco de Oliveira (Resende-RJ, 16 de junho de 1906 — Rio de Janeiro-RJ, 17 de janeiro de 1976), mais conhecido como Neném Prancha, foi um roupeiro, massagista, olheiro e técnico de futebol brasileiro. Ganhou a alcunha de “O Filósofo do Futebol” de Armando Nogueira, por suas frases engraçadas.

Neném iniciou sua carreira no futebol como jogador, no pequeno time Carioca. Não obtendo sucesso, abriu uma escolinha de futebol para crianças nas areias de Copacabana. Ao mesmo tempo, trabalhava como roupeiro, massagista e olheiro do time do coração, o Botafogo. Entre os jogadores que descobriu, estão Heleno de Freitas, e o ex-jogador e hoje comentarista Junior.

Por ser especialista no trato com os jogadores, principalmente os mais jovens, foi técnico das divisões de base do Botafogo.

neném prancha

2014 – O espírito da Copa (por Zeh Augusto Catalano)

Um dos principais objetivos deste PANORAMA DO FUTEBOL é ser uma memória não seletiva do mundo do futebol. Em nossas pesquisas para os livros que estamos escrevendo – projetos a serem lançados em 2016 – ficou claro para nós que alguns eventos fundamentais do nosso futebol, dos anos 1970, 80 e 90, foram simplesmente esquecidos das matérias televisivas ou dos sites na internet. Com isso, é quase certo que pessoas na casa dos seus 20, 25 anos, simplesmente desconheçam por completo tais fatos. Isso ajuda, e muito, na criação de mitos e na assimilação de inverdades.

Tempos atrás, numa discussão sobre o meu Vasco da Gama, lembrei um “ilustre” vascaíno do seu esquecimento do título brasileiro da segunda divisão de 2009, quando este listava os feitos do Vasco de 2000 pra cá. A resposta foi surpreendente: Isso é pra ser esquecido – Como a visita e vitória na 2a divisão fossem algo vergonhoso, a ser omitido da história do clube.

Esse raciocínio se estende às derrotas e fracassos, principalmente na literatura. Os livros se concentram nos grandes craques, grandes títulos, grandes vitórias. Com isso, personagens fantásticos são esquecidos. Grandes histórias são perdidas no tempo, exatamente porque elas não têm como pano de fundo uma grande vitória, um título. E se as editoras operam com a teoria de que “Livro sobre futebol não vende”, que dirá um livro que traga em sua alma uma derrota épica.

Imaginem a quantidade de livros ufanistas teríamos se Neymar Jr e companhia tivessem ganho a Copa? Talvez até alguns mais corajosos se aventurassem a lançar algum se o Brasil tivesse sido derrotado nos pênaltis ou se, por exemplo, a bola do último minuto de Pinilla, do Chile, ao invés de beijar a trave, fosse pra estopa.

Mas não foi isso que aconteceu. Ocorreu a hecatombe que todos viram, o apocalipse do Mineirão, os minutos mais vergonhosos da história do futebol brasileiro. Ali, naqueles minutos, certamente vários projetos foram postos de lado, apagados, esquecidos, pois ninguém daria mais um centavo por aquilo. Neymar não iria mais erguer a taça e os brasileiros só queriam apagar da memória aquela vergonha.

Quantos livros você viu lançados sobre a Copa de 2014? Pois é…

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Só que a gente não pensa assim. “2014, o Espírito da Copa” foi escrito por Paulo Roberto Andel, João Garcez, por mim e por mais dezessete pessoas que, no calor dos acontecimentos, relataram aquilo que viveram na mais espetacular das Copas. Os textos, de até três páginas, são publicados na ordem cronológica dos fatos, e acompanham desde as manifestações anteriores à Copa até a coroação da grande campeã. Todos, sem exceção, foram escritos durante o evento, e são datados. São textos com resenhas de jogos, comportamento das torcidas e dos “gringos” dentro e fora dos estádios, crônicas sobre personagens, por autores no Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Salvador. Várias visões e textos completamente distintos daqueles dias sensacionais.

Muitas páginas são dedicadas aos famosos 7 x 1. Principalmente a capa do livro. A foto que a ilustra foi feita minutos depois da “tragédia”, pelo Paulo Andel. Ao sair de casa, no Centro do Rio, eternizou a cena. Dois meninos, vestindo a camisa dez amarelinha, jogavam uma animada pelada, acompanhados pelo olhar vago do cidadão das ruas que, sentado ao fundo, assistia a tudo inerte. Apesar da maior derrota da história do futebol brasileiro, a vida continuava. O amor à bola seguia incólume.

Na contracapa, o projeto original previa o número 14 da camisa da seleção, representando o ano do certame. Depois daquele dia, decidimos trocar pelo 7, o número que vai assombrar o futebol brasileiro por longa data.

Nosso objetivo foi imprimir um retrato vivo do que foi a Copa. Acredito que tenhamos conseguido.

Caso tenha interesse em adquirir um exemplar, ele custa R$ 40,00 e pode ser comprado diretamente com um dos autores. Por favor, contacte Paulo-Roberto Andel – pauloandel@gmail.com

 

Imagens de Thomaz Farkas (da Redação)

Thomas Jorge Farkas, nascido Farkas Tamás György (Budapeste, 17 de outubro de 1924  — São Paulo, 25 de março de 2011), foi um dos pioneiros da moderna fotografia do Brasil.

Húngaro de nascimento, Farkas veio para o Brasil quando criança, em 1930. Seu pai, Desidério Farkas (Farkas Dezső), foi sócio-fundador da Fotoptica, empresa que também viria a dirigir. Iniciou sua carreira de fotógrafo na década de 1940 e foi um dos mais expressivos membros do Foto Cine Clube Bandeirante. Em sua obra destaca-se o registro da construção e inauguração de Brasília. Criou em 1979 a Galeria Fotoptica em São Paulo, destinada exclusivamente à exposição de fotografias.

Engenheiro de formação, foi professor de Fotografia, Fotojornalismo e Jornalismo Cinematográfico da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Foi também produtor de documentários, dentre os quais “Brasil Verdade”, “Jânio a 24 Quadros” e “Coronel Delmiro Gouveia”.

Morreu em São Paulo, aos 86 anos de idade.

Do lado de fora do Estádio do Pacaembu. São Paulo, SP. 1941. Foto: Thomaz Farkas/Acervo IMS Do lado de fora do Estádio do Pacaembu. São Paulo, SP. 1941. Foto: Thomaz Farkas/Acervo IMS[/caption]

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O que acontece por ora em nosso futebol (por Paulo-Roberto Andel)

 

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Os movimentos que cercam a questão da televisão no futebol brasileiro causam preocupação nos atores econômicos envolvidos.

Outrora deitada em berço esplêndido da estabilidade contratual, a Rede Globo em poucos meses se viu num ambiente de concorrência, contestação e repulsa como jamais se viu antes. Tendo o grupo Warner nas costas por meio do Esporte Interativo, a chamada Vênus Platinada já perdeu times expressivos como Santos, Coritiba, Atlético-PR e Bahia para o Brasileiro de 2019.

Cansados dos desmandos que envolvem horários esdrúxulos, da gourmetização do futebol, das coberturas tendenciosas e desproporcionais, afora outros problemas, torcedores organizados têm manifestado suas críticas à detentora dos direitos de transmissão, a ponto de um árbitro precisar paralisar uma partida para que faixas críticas fossem retiradas das arquibancadas.

Outro ponto de desconfiança está nos imbróglios envolvendo a cúpula de CBF, o grupo Traffic e as ligações na FIFA, já com a suspensão de figuras importantes e o julgamento de alguns chairmen do mundo da bola, casos do ex-presidente da Confederação José Maria Marín e do empresário Jota Ávila. Del Nero segue autoexilado no Brasil, temendo a Interpol caso pise em terras estrangeiras.

Diante de tantos elementos negativos, às vezes enrustidos por alguns poucos jogos de grande apelo e grande celebração midiática, vendendo um produto de aparência duvidosa e conteúdo contestável, é possível entender o esvaziamento atual do futebol brasileiro, enquanto o mercado econômico do esporte preferido dos brasileiros caminha para a inviabilidade econômica – mais de 80% dos jogadores no Brasil ganham até dois salários mínimos mensais, conforme estatísticas de 2015. Clubes pequenos esmagados e em processo de fechamento, os grandes administrando dívidas multimilionárias, empresários fazendo a festa financeira e os melhores jogadores bem distantes dos gramados brasileiros. Jogos sem público enquanto a TV não se preocupa: ela lucra com os torcedores em casa à frente do PPV ou nos bares em geral. Torcida para quê?

Em contrapartida, as federações são dirigidas por grupos feudais, sem remuneração mas administradores de ótimos lucros. Da Confederação, é desnecessário dizer. Os meios de comunicação de massa aplaudem o modelo atual, interessados que estão na manutenção do status quo.

Quando o futebol deixou de ser um grande lazer em firma de espetáculo para se tornar um mero negócio econômico, as suas raízes foram enfraquecidas. Trocou-se o público dos estádios pela massa dos espectadores em frente à uma novela monótona às quartas-feiras e domingos – terças, quintas, sextas e sábados também.

Qualquer análise que relacione o avançar deste sistema nos últimos anos com o fracasso contemporâneo do futebol brasileiro, seja nas competições continentais interclubes ou nas de seleções, não o faz por mera coincidência.

@pauloandel

Cinema: “Os boias-frias do futebol” (da Redação)

os boias frias do futebol foto 3

Atrasos de salários; jogadores que não recebem, outros que pagam para jogar; promessas não cumpridas; jornadas duplas ou triplas para complementar a renda familiar; falta de estrutura; contratos curtos de trabalho; ausência de calendário anual.

Essas são algumas das dificuldades e obstáculos da dura realidade do mercado de trabalho dos atletas da base da pirâmide do futebol brasileiro.

“Os boias-frias do futebol” revela os sonhos e as incertezas de dois jogadores da Série C do Campeonato estadual do Rio, a divisão mais operária do futebol fluminense.

Direção: Luciano Pérez Fernández

Produção: ArtLink Produções