Bangu: o dia em que Arthurzinho fez chover (por Paulo-Roberto Andel)

escudo bangu com fundo preto

Iniciando sua carreira no São Cristóvão e revelado pelo Fluminense, o Rei Arthur encarou uma pedreira: a busca por uma vaga na fenomenal Máquina Tricolor.

Deixando as Laranjeiras, teve uma temporada brilhante pelo Operário de Mato Grosso do Sul, depois no Bangu, Vasco, Corinthians e diversas outras equipes.

Um craque do meio de campo, com drible, arranque e visão de jogo, daqueles que o futebol brasileiro fabricava como ninguém.

Embora tenho conquistado diversos títulos em sua vida profissional, jogando em estádios abarrotados, para muitos a sua maior atuação foi numa tarde chuvosa de quarta-feira, feriado de 7 de setembro, no Maracanã enfrentando o Flamengo pelo primeiro turno do Campeonato Carioca de 1983, diante de apenas cinco mil torcedores (o que hoje pode ser um bom número, dependendo do jogo).

Na verdade, quem fez chover foi o próprio Arthurzinho, que marcou quatro gols na goleada por 6 a 2 imposta pelo Alvirrubro ao time rubro-negro, escrevendo seu nome ao lado de Nilo, Carvalho Leite, Russinho, Heleno de Freitas, Puskás e Marcelo, jogadores que também fizeram quatro tentos sobre o Flamengo numa mesma partida em toda a história.

O time da Gávea vivia uma crise desde a saída de Zico e uma derrota para o Botafogo por 3 a 0, também pelo carioca que derrubou a comissão técnica e a diretoria inteira do clube.

A conta ficou para o jovem goleiro Abelha, vindo da Ferroviária de Araraquara, substituto de Raul Plassmann e que fazia sua estreia justamente no Flamengo x Bangu. Foi extremamente criticado pela goleada. Felizmente a carreira de Abelha não foi arruinada: depois ele jogou no São Paulo e em outros clubes, tornou-se treinador de futebol e já escreveu até um livro, chamado “Treinamento de Goleiro – Técnico e Físico”.

Campeonato Estadual – Taça Guanabara
Local: Maracanã
Renda: Cr$ 4.282.400,00/ Público: 5.009 pagantes
Árbitro: Pedro Carlos Bregalda, auxiliado por João José Loureiro e José Inácio Teixeira

Bangu: Toinho; Gílson Paulino, Tecão (Jair), Fernandes (Índio) e Tonho; Mococa, Arturzinho e Mário; Marinho, Fernando Macaé e Ado; Técnico: Moisés

Flamengo: Abelha; Leandro, Marinho, Mozer e Ademar; Andrade, Vítor e Júnior; Robertinho, Baltazar (Peu) e Adílio; Técnico: José Roberto Francalacci

Bangu dá goleada histórica
Fonte: Jornal dos Sports

(Reprodução do site bangu.net)

Bem que o Bangu tentou dar de sete em comemoração ao dia da Independência do Brasil, mas acabou mesmo ficando nos 6 a 2 sobre o Flamengo, ontem à tarde, no Maracanã. Foi uma goleada histórica como histórica foi a atuação de Artur, que marcou quatro gols, um de pênalti, um de cabeça, um de rebote de goleiro e um antológico.

Para quem vem acompanhando o Flamengo, a goleada de ontem não surpreendeu tanto. O Goleiro Raul é que vinha impedindo derrotas e não deixou que o América marcasse mais de três. Ontem, Raul não jogou e, para complicar ainda mais, Abelha, contrariando o seu nome, falhou principalmente pelo alto.

A desarrumação é total, parece faltar motivação a alguns jogadores, outros demonstram precisar de um psicólogo. Além de uns dois convocados para a seleção que não se mostraram dispostos a arriscar uma contusão. O comando, sem força, devido às circunstâncias em que o clube se encontra, tudo indefinido, também não pode exigir o máximo. A confusão é tão grande que a cada jogo, é escalado um camisa 10. Ontem, foi a vez de Júnior.

Mas a goleada de ontem não pode ser creditada apenas a ruindade do Flamengo. O Bangu jogou e vem jogando muito bem, tanto que ganhou do América e do Goytacaz nos jogos anteriores. A tendência é crescer com Marinho Chagas na lateral e a consolidação da filosofia do técnico Moisés. O Time do Bangu está cheio de baixinhos, mas todos muito bons de bola. E um craque chamado Artur.

Ao contrário do time do Flamengo, que ainda não entendeu a necessidade de até morder os adversários, o do Bangu colocou tudo em campo. A técnica, velocidade, disciplina tática e o próprio coração. O seu único erro ontem, foi voltar atrasado para o segundo tempo, em três minutos. A troca de uniformes, devido ao campo enlameado, deve ter sido o motivo. Quando ao Flamengo, nem isso.

Castor não se ilude, vai reforçar o time

A goleada de 6 a 2 sobre o Flamengo não diminuiu o ânimo de Castor de Andrade de reforçar a equipe. Após a vitória, o dirigente disse que continua interessado na contratação de dois jogadores – um centroavante e um zagueiro – e que Marinho Chagas, que assina hoje seu contrato, deverá estrear brevemente no Bangu:

– Essa goleada não vai me iludir – disse o dirigente. Ainda quero mais reforços e vou agir rapidamente, a tempo de reforçar o time para o segundo turno. Nomes eu não digo, mas posso garantir que o Bangu terá grandes reforços muito em breve.

A situação de Marinho Chagas já está definida. Ele assina contrato hoje e, se tiver em condições até sábado, poderá até estrear contra o Botafogo. Mas essa é uma coisa pouco provável. O jogador, apesar de se sentir bem, ainda não decidiu se estreará mesmo:

– Vai depender dessa dorzinha, que sinto na região glútea. Se melhorar, eu jogo. Mas se continuar sentindo, vou pedir ao Moisés para dar um tempo e entrar só quando estiver bem. Afinal, depois de um resultado desses, não posso entrar em campo sem condições totais. O Bangu está armando um grande time e vai brigar pelo título.

Quem deverá voltar em breve é o lateral direito Rosemiro, que a cada vem melhorando muito. O lateral disse que na próxima semana pedirá a Moisés para treinar normalmente, já que se sente totalmente recuperado.

Na vibração, o prêmio é dobrado

A goleada de ontem pode ser considerada Histórica. Pelo menos, o vestiário do Bangu tinha o clima de um resultado inesquecível. O ambiente era de muita descontração e Castor de Andrade era um dos mais emocionados, tanto que anunciou um bicho de Cr$ 100 mil, alterando os seus planos, que era de pagar Cr$ 50 mil pela vitória.

Os jogadores se abraçavam e os torcedores lembravam que a última vez que o Bangu conseguiu golear o Flamengo foi em 1970, vencendo de 4 a 0. E, em tom de gozação, o supervisor Carlos Alberto Galvão lembrava, juntamente com Mário, o lance em que o Bangu marcou seu sexto gol, quando ele, Carlos Alberto, comemorando o gol, gritou para Mário mandar o time parar de fazer gols.

Como acontece em todos os jogos, Moisés se trancou na rouparia e só saiu para dar rápida entrevista. Apesar da goleada, o técnico não parecia de todo entusiasmado e só se descontraiu depois que Ademir Vicente, ex-jogador do Botafogo, Corinthians e do próprio Bangu, brincou com o treinador:

– Tá justificando o quê? – disse, ao ver o treinador dando entrevistas para um jornalista. – depois de uma vitória dessas não precisa justificar nada. Aliás, estou muito aborrecido com o senhor. Hoje, o Bangu podia ter dado de 10 a 1 no Flamengo. Uma goleada memorável. Quem foi que mandou o time parar de fazer de gols?

Após as palavras de Ademir Vicente, Moisés riu e fez alguns comentários sobre a partida:

– Ainda estou um pouco atônico, pois apesar dos 6 a 2 o jogo não foi tão fácil assim. Até marcarmos o quarto gol, o jogo estava duro e temi até por uma reação do Flamengo, que é um grande time. Felizmente, dessa vez, nós contamos também com a sorte e conseguimos transformar em gols quase todas as jogadas de perigo que criamos na área do Flamengo.

Para o jogo contra o Botafogo, sábado, Moisés não pretende alterar o time. A apresentação dos jogadores será hoje, à tarde, no Estádio Guilherme da Silveira. Segundo o Dr. Renato Pascoal, Fernandes e Tecão, que saíram contundidos, não deverão ser problemas para sábado.

O Destaque: Arturzinho, um gol de gênio

Aos 28 minutos do segundo tempo, Arturzinho dominou a bola no meio de campo e fingiu que ia dar para Fernando Macaé. Nesse instante, Mozer tentou fazer a linha de impedimento e foi o seu azar. Numa jogada de gênio, num dos gols que podem ser considerados como um dos mais belos já marcados no Estádio Mário Filho, Arturzinho partiu em direção ao gol, driblando, com um único toque, toda a defesa do Flamengo. Abelha saiu no desespero e Arturzinho, com um chute fatal, mandou a bola por cobertura e mesmo antes dela chegar as redes, ele já estava comemorando.

– É um gol raro. Nem mesmo os grandes jogadores estão acostumados a marcá-los. Fiz com a convicção de que poderia marcá-lo e dei sorte. Mas, volto a repetir, foi um lance muito difícil de acontecer.

No vestiário, Arturzinho foi o jogador mais festejado. Até mesmo a oração, que é feita após todas as partidas, independente de qualquer resultado, teve que esperar. Arturzinho, apontado como o pincipal destaque do jogo, demorou a sair de campo, tal o número de entrevistas que teve de dar às emissoras de rádios.

Depois, no vestiário, ele disse que o dia de ontem, em que assumiu a artilharia do Campeonato Estadual, ao lado de Luisinho do América, com 10 gols, após marcar quatro contra o Flamengo, poderia ter sido muito especial se fosse no domingo. Por isso seria duplamente especial.

– De qualquer maneira é uma data memorável, mas seria muito especial mesmo se fosse domingo, dia em que serei pai. Minha mulher está grávida e vai se internar na Clínica Jabour, onde terá uma cesariana, domingo. Por isso seria duplamente especial.

E um dos artilheiros do campeonato será ainda homenageado pelo Bangu. O supervisor Carlos Alberto Galvão informou no vestiário, logo após a partida, que Castor de Andrade já mandou fazer uma camisa, tamanho muito pequeno, para dar ao filho de Arturzinho. Como só saberá se a criança será menino ou menina após o parto, Castor mandou confeccionar apenas o nome do jogador na camisa, em cima do escudo. Mas mandará bordar o nome da criança, tão logo Arturzinho diga como se chamará.

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