O imponderável (por Zeh Catalano)

Era uma noite chuvosa qualquer. Eu assistia distraidamente um jogo da segunda divisão paulista. O silêncio foi quebrado pela pergunta da minha mulher:

– O que é isso que a gente tá vendo?
– São Bento x XV de Piracicaba.
– E isso vale o que?
– Segunda divisão paulista.

Fui forçado a mudar de canal. No seguinte, uma luta de box. Nesse segundo, um lutador socou abaixo da linha de cintura do outro. Vaias. Parei pra ver. O homem se levantou enfurecido. Segundos depois, outro golpe. Mais vaias. O primeiro se contorce, demora, e levanta mais enfurecido ainda. Para surpresa minha e de todos, um terceiro golpe abaixo da linha de cintura do mesmo lutador faz o juiz encerrar a luta, desclassificando o agressor. O oponente, ainda no chão, não viu quando o seu corner inteiro pulava pra dentro do ringue e começava uma pancadaria generalizada. Umas quarenta pessoas dentro das quatro cordas se ensopapando com toda a vontade. Um espetáculo sensacional, inusitado e ao vivo.

O exemplo vem do boxe, mas o texto fala do futebol, por ser o único esporte em que times de nível muito inferior podem causar grandes dores de cabeça a um adversário superior. Não há emoção no confronto entre um poderoso e um fracote no vôlei, no basquete ou em qualquer outro esporte coletivo que não o futebol.

Minha mulher também parou pra ver o furdunço. Mas mesmo tendo sido capturada pela curiosidade, não cabe na cabeça dela – e da grande maioria das pessoas – assistir a um Vasco X CRB às sete e meia da noite de uma quarta-feira. É uma porcaria de um jogo com o CRB, um time lá de Alagoas. Um espetáculo desses não pode ter nada de interessante.

Uma noite, em 1984, eu assistia, pela tv, a Santos x Ferroviária de Araraquara, na Vila Belmiro. Tive a honra de assistir ao vivo a esta sequência impossível de defesas de Rodolfo Rodriguez, outro monstro uruguaio a agarrar por times do Brasil.

Lá se vão trinta e dois anos. E eu não esqueço.

Quem foi a São Januário na quarta-feira passada testemunhar a pelada entra Vasco x CRB tampouco esquecerá um obscuro jogo, no qual, perdendo o jogo e precisando do empate, o técnico Jorginho promoveu a façanha de substituir o centroavante do time – Thalles –  por um beque, Rafael Vaz, para espanto das sociais e dos telespectadores. Ao entrar em campo, O beque foi pro ataque. E o beque marcou um golaço no último minuto do jogo.

Outro jogo para a história. Daqueles que, por uns poucos lances, o vascaíno (por que não o amante de futebol?) vai se lembrar por anos.

Então, sugiro que você não olhe torto praquela aparente pelada num campo horroroso nos confins do Brasil. Algo inesquecível pode estar ali, prestes a acontecer. O imponderável.

 

CRB x CSA, o clássico centenário das Alagoas (da Redação)

csa crb

A final do Campeonato Alagoano de 2016 acontece em dois jogos, disputados nos próximos dois domingos. CSA e CRB farão uma decisão toda especial, não apenas por se tratar de um “Clássico das Multidões”, mas por ser um clássico que completa 100 anos em 2016.

O primeiro confronto aconteceu em 1916, com vitória do CSA por 1 a 0 sobre o CRB. Desde então, as equipes se enfrentaram 504 vezes, com 190 vitórias e 616 gols do CRB, que tem grande vantagem sobre o rival com 152 vitórias e 623 gols. Além disso, aconteceram 162 empates.

O CRB é o atual campeão e tem 28 títulos estaduais, enquanto o CSA é o maior vencedor da competição com 38 títulos.

O CRB é o único clube alagoano a conquistar um título regional (Copa do Nordeste 1975). É também o único a ganhar um título interestadual disputado contra os times paraibanos, que concedeu acesso para segunda divisão do campeonato brasileiro. O CRB é o segundo clube mais velho do Estado, sendo pioneiro no Estado no tocante às participações nas series A (1972) e B (1971) do Campeonato Brasileiro, também sendo o primeiro a vencer um campeonato alagoano em 1927 e a ganhar títulos regionais. O CRB foi o primeiro clube de Alagoas a construir estadio particular, e o primeiro campeão no estádio Rei Pelé. Chegou a final da serie C em 2011 e foi vice campeão da Copa do Nordeste em 1994.

O CSA é o único time de Alagoas a disputar um torneio internacional, a conhecida Copa Conmebol de 1999, em sua ultima edição, organizada pela Confederacão Sulamericana de Futebol. O campeão foi o Talleres (Argentina), que na final venceu a própria equipe alagoana.

O maior confronto do futebol alagoano rendeu um documentário intitulado “Futebol na Terra da Rasteira” (2013), dirigido por Thalles Gomes.

Numa crônica escrita em 1921, o escritor alagoano Graciliano Ramos sentenciou: “O futebol não pega, tenham a certeza. Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência. Dediquem-se à rasteira, rapazes!”

O documentário FUTEBOL NA TERRA DA RASTEIRA tenta entender como, contrariando todas as expectativas, o futebol pegou em terras caetés. Através do relato de ex-jogadores que marcaram a história da centenária rivalidade entre CRB e CSA, o filme traça um panorama geral da relação permeada de alegrias e tristezas entre o futebol e a cidade de Maceió.

Na contramão da febre full hd, o curta-metragem foi todo finalizado em VHS. Dirigido por Thalles Gomes e produzido pela Subvídeos Produções, o curta-metragem foi um dos vencedores do Premio Guilherme Rogato da Prefeitura de Maceió. Na escalação do documentário estão os ex-jogadores Silva Cão, Paranhos, Joãzinho Paulista, Catanha, Jorge Siri, Peu, Jerônimo, Felipão e muitos outros. Sem contar a narração de Márcio Canuto e a trilha sonora do Wado.

Colaboração: Subvídeos Produções e Minuto Esportes.

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